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Fragmentos de um Mundo Colhido
Texto processo em sua terceira
versão
Cristiana Tejo
Mestranda em Comunicação pela UFPE e coordenadora
de Artes Plásticas do Instituto de Cultura da Fundação
Joaquim Nabuco
Um ser livre como Gil Vicente transita por diversificados fluxos
quando sua alma assim pede. Momentos como universos, trilhas descontínuas
e reencontradas. Alheio, mostra-processo que já
se instaurou e se metamorfoseou em diversas cidades e encontra-se
agora em Recife, constitui um desses caminhos tomados pelo artista
nesses quase trinta anos de trajetória. Assinala um período
de experimentação não tão novo assim,
mas apenas mostrado e intensificado recentemente. Sentindo-se à
vontade para arriscar, depois de testemunhar uma flexibilização
dos parâmetros artísticos em sua terra natal e de um
ambiente institucional propício para estas inquietações,
Gil Vicente lança-se a experimentar coisas que lhe intrigavam
desde a década de 70 e que foram deixadas de lado pela urgência
da resolução de outras questões de seu trabalho.
Pincéis, papéis e telas repousam enquanto outros instrumentos
são acionados para ajudá-lo em sua busca existencial.
Se inicialmente as pessoas e o mundo eram trazidos para dentro de
sua vida por meio do retrato e da pintura, agora o artista joga-se
no mundo para captá-los. Observação e ação
se alternam, o distanciamento já não é absoluto.
Sem o quadro como fronteira, entrelaça-se ao Outro para encontrar-se,
reunindo seus fragmentos afetivos espalhados por objetos, sensações
e alianças. Vida e arte se misturam e a contaminação
mútua acontece no embaralhamento de sua identidade com a
do outro, apropriando-se do outro e das coisas dos outros e das
de ninguém. Desde seu trabalho anterior, a série apresentada
na 25ª Bienal de São Paulo, Gil Vicente já vinha
buscando a dissolução desta separação
entre o eu e o Outro, ilustrando em seus auto-retratos Rorscharch,
esse espelhamento e diferenciação diante de pessoas
que lhe influenciaram e/ou são parte quase que indissociável
dele. Fica claro nestes atos o reconhecimento da fragmentação
da unidade do sujeito e de suas múltiplas identidades. Em
Alheio, amigos ou conhecidos com aparência física semelhante
são convidados a jogar o jogo da diferença e da semelhança.
Apropriando-se da idéia dos Cartemas de Aloísio Magalhães,
o artista esforça-se para confundir o olhar do expectador.
Esta apropriação deixa claro o segundo deslocamento
empregado nesta série: a problemática da autoria.
Dono de um estilo pictórico pessoal, desenvolvido ao longo
de seus muitos anos de investigações no campo da pintura,
Gil empreende visitas às casas de amigos artistas, tomando
emprestado poéticas, estilos e materiais utilizados por eles
para homenageá-los. Esta aposta no questionamento sobre o
autor se desdobra na coleta e na incorporação de objects
trouvées e de atos de não-artistas. Afinal de contas,
ele é o artista e traz em si a autoridade da escolha e da
reunião. No entanto, esta captação não
se dá por meio da autoridade, do controle, da manipulação.
Gil Vicente procura preservar ao máximo o contorno original
dos arames de champanhe, pacientemente colhidos a cada ano no dia
de Reveillon, a grafia do bilhete encontrado ao acaso, a composição
pictórica das portas, dos muros e das passagens, os borrões
dos jornais de nanquim causados por pinceladas outras.
As coisas, produzidas por outros ou devidas a outras situações,
quase que estão por ali, esperando essas junções,
ansiando por esta anexação, como os espaços
em branco entre as palavras e os parágrafos de páginas
de um livro sobre Gestalt, este também um achado, que são
somados e que dão os contornos de desenhos pornográficos,
como se o explícito estivesse sempre camuflado nas entrelinhas.
Nestes momentos, o mundo anterior não é criado, é
acolhido em toda a sua espontaneidade e erro.
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