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O artista se diverte
Franklin Jorge
É sabido que a pintura, entendida como expressão
estética, morreu nos anos '80. Esgotada em suas possibilidades
expressivas, manteve-se em estado de coma até a overdose
final de carnavalização que nivelou tudo por baixo
sob a forma de remeiques, estimulados por uma crítica frívola
a serviço da decoração de ambiente pasteurizados
que não exprimem mais a personalidade daqueles que neles
vivem. Hoje, por sua impessoalidade, as casas lembram bancos e clínicas,
não lares.
Nesse contexto, identificado pela sensação de "dejá
vu", de malandragem e mornidão cerebral, surpreende
uma exposição como a do artista pernambucano Gil Vicente,
em cartaz na galeria do Núcleo de Arte e Cultura (NAC) da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um espaço que
fez profissão de fé da frivolidade e que só
muito excepcionalmente acerta o passo com a qualidade que, segundo
Ernst Fischer ( in "A necessidade da arte", Editora Zahar),
deveria ser uma condição básica do processo
de criação e, conseqüentemente, da animação
cultural; especialmente da animação cultural chancelada
pela Universidade, que tem obrigatoriamente o dever de produzir
informações de qualidade e não baboseiras ao
gosto de seus eventuais dirigentes.
Dos seus acertos, cito essa exposição de Gil Vicente,
pois acompanho sua trajetória desde os anos '70, quando estreou
em mostra sob a curadoria de Bernardo Dimenstein, artista, arquiteto
e marchand conceituados, fundador e proprietário da galeria
de arte que leva o seu nome e que se consolidou ao longo dos anos
como um dos endereços clássicos da arte no Recife.
Lá, nessa mesma época, expôs também o
nosso Fernando Gurgel: como Gil Vicente, um dos artistas sobreviventes
da débâcle da pintura, numa confirmação
do talento pessoal, do trabalho compulsivo e da inquietação
intelectual que os distingue no mundo banalizado da arte contemporânea
e das galerias transformadas em brechós e bricabraques.
Excluídos alguns pequenos abusos que não chegam a
comprometer seriamente o conjunto exposto à curiosidade e
ao deleite do público natalense, cada vez mais indiferente
às manifestações do oficialismo, Gil Vicente
desafia-nos, como um artista que atua em plena consciência.
Porém teria sido mais feliz se tivesse excluído da
mostra os textos escritos em mal português e o uso que faz
dos arames apropriados das garrafas de champagne, que nada acrescentam
ao conjunto das obras e traem um certo cochilo do rigor, que torna
impactante a expressão.
Reflexão instigante sobre a banalização da
arte, presentemente praticada em estado demencial e incensada por
uma crítica ignara que desconhece a história e a filosofia
da arte, os artefatos produzidos por Gil Vicente exprimem a auto-suficiência
bem humorada de um artista em diálogo com diferentes recursos
de linguagem.
Gil Vicente lida bem com o conceitualismo. A homenagem a Aluizio
Magalhães - inventor dos "Cartemas" - representa
o ponto culminante dessa mostra eclética, rica de insights
estéticos e de uma jovialidade virtual e imanente. São
assemblages que remetem ao documento fotográfico, ao ludismo
e a body art, porém uma body art isenta das efusões
de perversidade características dessa vertente performática.
Nessa pequena série de obras, poder-se-ia dizer que o artista
se diverte, escorraçando tédio com uma vitalidade
cada vez mais ausente nas artes plásticas dos nossos dias.
E, tudo isso sem presunção de genialidade, tentação
da qual não escapam os artistas provincianos. Mas, como muito
talento, seriedade e técnica. Amém!
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