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Depoimento

Gil Vicente
dezembro / 2001

Alheio reúne trabalhos feitos por mim que se relacionam, de algum modo, com outras pessoas (artistas ou não) e suas produções, e também com produtos gráficos e pictóricos realizados de forma aleatória ou sem pretensão artística.

Desde 1998, registro, fotograficamente, elementos plásticos bidimensionais (Portas, Passagens, Desenhos) encontrados nas ruas do Recife. Quinze destas imagens estão na mostra.

Os exemplares do periódico Notícias de Nanquim são encadernações de folhas de papel jornal que, cobrindo uma mesa como forro, absorvem o excesso de nanquim de outros desenhos feitos sobre elas. As manchas aparecem nos papéis-jornais sem elaboração, assim como ocorrem sobre pedaços de fita crepe que prendem retângulos de fórmica, onde diluo o nanquim. Esses pequenos segmentos de adesivo são paisagens que chamo de Crepúsculos.

Durante meses, após três festas de ano novo, recolhi, na Avenida Boa Viagem, dezenas de Arames de Champanhe (que prendem a rolha à garrafa) amassados pelos automóveis. Os pequenos desenhos finais, resultados da combinação de poucos arames, seguem apenas a regra de não alterar a forma original como cada arame foi encontrado.

No conjunto de fotos do apartamento em São Paulo (A casa de Manoel Veiga), onde fiquei hospedado durante quatro meses, a atração foi registrar as soluções estéticas encontradas pelo amigo para adequar seus universos e seus sistemas de vida e trabalho aos espaços disponíveis.

Os objetos que compõem Coração e Pé estavam no atelier de Alexandre Nóbrega, onde trabalhei durante março e abril de 2001. Apenas juntei os dois ex-votos no centro da mesa.

A função do trabalho Purgo, múltiplo impresso em off-set e tipografia, foi aproveitar um impulso provocado e pedir desculpas a quatro dezenas de pessoas.

Comecei as visitas a obras alheias em 1990, com o desenho Visita à Casa de Raul Córdula, feito “à maneira” de Raul para uma mostra coletiva que o homenageava. Agora passeio pelo trabalho de outros artistas e, através do sistema criado por Aloísio Magalhães para os seus cartemas, tento misturar minha imagem com a de alguns amigos.

Distribuindo a todos os visitantes, na entrada da exposição, um poema que não é de minha autoria, intitulado Oração, procuro compreender, entre outras leituras possíveis, até que ponto estou contido nos outros e até onde consigo apropriar-me, verdadeiramente, daquilo que me é distinto.