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Paulo Rafael
Artista Plástico - Mestrando em Comunicação
UFPE
O senso comum aponta diferenças entre erotismo e pornografia.
Entretanto, quando se procura catalogar tais diferenças,
entra-se em um campo subjetivo, pois essas fronteiras dependem do
observador ou do contexto cultural e não das características
intrínsecas do objeto (erótico ou pornográfico).
Afinal, já foi dito que a pornografia é o erotismo
dos outros. Erótico e pornográfico não podem
ser diferenciados apenas com base em conceitos de explícito
e implícito. Assim, em geral procuro evitar o termo erotismo,
utilizando apenas o termo pornografia, ampliando seu significado.
Pornografia como representação do desejo sexual, uma
sexo-grafia ou uma desejo-grafia, na mesma linha de pensamento que
conduz a palavras como geografia, litografia e xilografia.
Neste sentido, a obra de Gil Vicente é permeada desde o
início pela representação do desejo, uma obra
essencialmente pornográfica. A força erótica,
o falo, a vagina, o ânus o sêmen que agora podem ser
vistos na série de 24 desenhos "Leia o livro, veja o
filme", já existiam sub-repticiamente há muito
tempo e é surpreendente que apenas agora tenham vindo à
superfície.
O desejo sexual, essa força que se insinua na obra e agora
toma posse, pode ser visto desde a litografia de 1979, "De
um caderno antigo", até o nanquim de 1997 "Minha
mãe morta". Nesse intervalo e além dele, percebo
nos trabalhos de Gil, o desejo inexorável de comer o outro,
apossar-se dele, trazê-lo para dentro de si para fazer parte
de sua própria lama. Esse outro-objeto-de-desejo é
pan-mórfico; a antropafagia vicentiana dirige sua fome para
um "Coco" (óleo de 1986), para "Felipe fazendo
a barba" (óleo de 1985), passando por todas as moças
de Gil, como o "Nu Brennand" (óleo de 1987), explodindo
literalmente no sêmen de vários dos 24 desenhos. Observo
nesses trabalhos a vontade de meter os dentes na carne do outro,
violentá-lo, desvendá-lo, tornar-se parte do outro.
Esta série pornográfica deve ser analisada mais detidamente.
Em páginas de livro, Gil cobre as palavras de nanquim preto
e "descobre" (ou revela) os rios de branco que passam
a formar as linhas do desenho. Nos rios brancos (a idéia
do sêmen aparece novamente), como em um teste de Rorscharch,
ele vê apenas perversão.
Na verdade, nesta série, como em quase toda a obra de Gil,
há o confronto entre o cerebral e o acaso. De certo modo,
o artista mata deliberada e simbolicamente o cerebral, a palavra
escrita que é coberta de preto, o livro que é destruído,
cala as palavras, para, em seguida, desvelar o obsceno.
Obsceno significa aquilo que fere o pudor, impuro, desonesto, ou
aquele que profere ou escreve obscenidades. A palavra obsceno e
suas derivações apresenta outros significados importantes
e alguns problemas. Procurando por sua origem latina, encontramos
que obsceno significa colocar alguém diante da lama. Por
outro lado, podemos encontrar também que o obsceno é
aquilo que deve ser afastado da cena. A palavra é rica e
mesmo uma certa obscuridade de sua origem a enriquece de significados.
É impressionante a relação entre a lama que
Gil afirma aflorar em seus trabalhos em nanquim que foram apresentados
na 25ª Bienal de São Paulo e a lama contida na etimologia
da obscenidade que hoje aflora.
Nesse confronto permanente entre lama e introversão, entre
cerebral e acaso, o artista liberta algumas palavras, por entre
o preto do nanquim, um discurso racional perverso, ambíguo,
perversão pré-existente, um Rorscharch de palavras
que também se desvela. A pornografia tem um objetivo claro,
direto, funcional: excitar o observador, de preferência rapidamente.
Ao apresentar o obsceno com palavras veladas e desveladas, Gil Vicente
cria paradoxos pois a excitação compete com a palavra,
a lama compete com a razão. Mas é importante observar:
há prazer sexual no fazimento do trabalho; sinto que o artista
gostou-gozou revelar cada rio branco de sêmen que conduz aos
estranhos objetos de desejo.
Zé Cláudio já disse uma vez que Gil resolveu
se destruir, se emerdar. Essa lama a que Gil e Zé Cláudio
se referem, lama alma humana, revela-se no obsceno, desvela o desejo
que esteve sempre presente na obra vicentiana, como aquele animal
que circunda a mulher da litografia, envolvendo lentamente, esperando
o momento da posse, posse total feita de dentes, sangue, carne,
gozo. Gil Vicente é o animal que espreita, autor de uma pornografia
antropofágica.
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