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Diante do espelho
Vicente Vitoriano
A atitude de apropriação tem sido posta como uma
característica da arte contemporânea, talvez por ter
se tornado comum no universo da arte nos dias atuais. Entretanto,
a apropriação de imagens criadas anteriormente foi
sempre recorrida por artistas de todas as épocas. Um exemplo
recente, do século XX, são as famosas dezenas de pinturas
de Picasso feitas a partir das "Meninas" de Velásquez.
Pois é assim, respaldado por um consenso de contemporaneidade
e, ao mesmo tempo, produzindo com base em métodos, técnicas
e atitudes pertencentes à tradição, que o pernambucano
Gil Vicente criou a sua mostra "Alheio", em cartaz na
Galeria Conviv´art, até 23 de maio.
Advirta-se que o "alheio" do título nada tem a
ver com um possível alheamento, no sentido de alienação,
insciência ou desatenção do artista. Muito pelo
contrário, Gil Vicente lança um agudíssimo
olhar sobre o mundo, sobre a urbanidade, sobre a arte. O alheio,
como uma reverência, são as imagens, os processos construtivos,
as atitudes e as idéias "dos outros", de que ele
se apropria e com que transforma a alteridade em profunda subjetividade,
criativa e operante. A meio caminho entre esta noção
achada para título e as obras, o artista nomeia algumas delas
como "visitas". Isto é, ele "passa" por
elementos da arte de outros artistas e de anônimos recifenses,
para objetivar obras muito "suas". Para tanto, Gil Vicente,
um dos mais instigantes desenhistas vivos no Brasil, afastou-se
por momentos do grafismo gestual e experimenta fotografismo, tipografismo
e até um curioso e divertido grafismo físico com arames
de garrafas de champanhe.
Em todas as obras há um diálogo entre o que é
do outro e o que é "próprio". Esta relação
fica clara na série de auto-retratos fotográficos
em que o artista posa com amigos, sempre parecidos com ele. Ao tempo
em que o discurso é sobre si, é sobre a identidade,
Gil Vicente manipula as fotografias - muito semelhantes umas com
as outras, criando jogos especulares segundo uma "visita à
casa de Aloisio Magalhães", uma apropriação
re-construtiva dos "cartemas" daquele artista, pernambucano
como ele. Ver-se no outro como em um espelho, constitui este exercício
que também é um delicado ritual de antropofagia formal.
Uma outra série de fotografias, as "Passagens",
também exemplifica este diálogo: muros com lugares
de portas ou janelas, fechados com alvenaria e pintados operativamente
sabe-se lá por quem, tornam-se "artisticamente pictóricos",
mediados pela ação do artista fotógrafo. Nos
desenhos com arame, Gil Vicente apenas reúne peças
que tomaram aquelas formas por pisadas ou rodas de automóvel,
na praia de Boa Viagem. Há, porém, duas obras em que
o artista visita a si mesmo e ao seu ateliê. Nelas, são
aproveitadas as "sobras" de um trabalho a nanquim. Uma
é a composição, que resultou dos vazados de
tinta ou de pinceladas além do suporte sobre papel jornal,
usado como forro. A outra se compõe de pequenas tiras de
fita gomada "sujas" de nanquim... A trivialidade destas
duas obras resume uma atitude de sincera humildade do artista diante
de si próprio, diante da arte e dos artistas, seus pares
e seus reflexos.
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