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Artista da Figura
Marcio Doctors
Acredito que os movimentos dos corpos no espaço, sua ocupação
e distribuição, denotam o sentido de uma conversa;
o destino de uma percepção. Foi assim que se deu o
encontro que tivemos no Recife, em um fim de semana corrido - de
ida e vinda rápida - de um dia para o outro: Rio-Recife-Rio.
Foi desta forma em par - como velhos companheiros decalcados na
efígie do outro - que nosso encontro se deu - frente a frente
- sentados em um banco de austeridade monástica, que corta
perfeitamente ao meio o escritório do ateliê de Gil
Vicente. Sem que tivéssemos percebido, repetimos com nossos
corpos, como em uma premonição às avessas,
a mesma situação da série dos auto-retratos
Rorschach, que dominavam uma das paredes do escritório: estávamos
sentados um em frente ao outro, como em um jogo de espelhamentos,
em que a presença do outro tornava-se uma presença
de reconhecimento; uma quase extensão de si mesmo. Essa maneira
extensiva de ver o outro, como um vínculo necessário
para a sua própria construção, me deu a chave
da obra de Gil Vicente. Eu e Maria Vasconcelos, Eu e José
Cláudio, Eu e João Câmara e, naquele
momento, só que na realidade dos acontecimentos, Eu e
Marcio Doctors queriam e querem dizer Eu e a Pintura.
Eu e a Pintura é o que trata a trajetória
artística de Gil Vicente. Muito já foi dito sobre
artistas que têm necessidade da arte para se manterem vivos.
Mas não é nesse sentido romântico que estou
me referindo a Eu e a Pintura, apesar da pintura ter também
para ele esse aspecto de forma de relacionamento com as pessoas
e o mundo. Estou me referindo, neste momento, a um ponto de irredutibilidade
máxima, no uso de meios técnicos mínimos, em
que a pintura de Gil Vicente se realiza. Em outras palavras, Eu
e a Pintura significa dizer Só Eu e Só a Pintura.
Significa dizer que ele visa um procedimento plástico que
busca a simplicidade, que se manifesta através da escolha
de meios técnicos expressivos mínimos como o papel,
o nanquim e o pincel. Essa redução faz emergir uma
apreensão direta da arte: o que está em jogo é
uma passagem entre o artista e sua produção, sem intermediações
outras que não os procedimentos já consagrados pela
história da pintura, despidos de qualquer excesso. Essa concisão
de meios nos fala de uma necessidade atávica da pintura de
manter-se viva como expressão da película do mundo.
O que a obra de Gil Vicente busca é manifestar radicalmente
essa percepção da pintura como superfície plana,
bidimensional.
Esse compromisso com o bidimensional se apresenta
como uma constante na trajetória de Gil Vicente. Desde as
primeiras manifestações pictóricas, quando
aos doze anos entra na Escolinha de Arte do Recife, passando pelos
ateliês livres, ligados à Universidade Federal de Pernambuco,
até a bolsa de estudos que recebe para estudar arte em Paris;
em todas essas experiências, sua prática artística
mantém-se fiel à idéia da pintura como o lugar
do plano. É interessante observar que não encontramos
nenhuma manifestação tridimensional na sua produção.
Nem sequer um encantamento tátil, como uma tinta mais espessa
ou alguma textura. Seu interesse concentra-se no uso da tinta quase
diluída, com pontuações de linhas gráficas.
A única experiência tridimensional que consegui descobrir
foi uma série de 1.000 origamis, que não tinha
propriamente um objetivo artístico e funcionou mais como
uma experiência de disciplina, autoconcentração
e leveza espiritual, que é produzida por um esquecimento
desencadeado pela repetição quase automática
do gesto de dobrar o papel. E, mesmo nesse caso, vale observar que
o origami é um plano que busca desdobrar-se na profundidade
do espaço. Em suma, até quando pensa o espaço
tridimensional, Gil Vicente o pensa a partir do plano. É
essa concentração no plano que dá uma das características
fundamentais de sua obra, que é a de pensá-lo como
um recorte suspenso das cenas do mundo, capaz de absorver a densidade
e a intensidade das sensações.
Gilles Deleuze, em seu livro Francis Bacon - Logique de la sensation,
no capítulo Peinture et sensation1
toca nesse ponto quando analisa a função da figura
na obra de Cézanne, dizendo que apesar de não ter
sido ele quem inventou a via da sensação na pintura,
foi ele quem deu status para essa questão, que poderíamos
resumir como um ponto de interseção entre o subjetivo
e o objetivo na história da arte. Em outras palavras, Cézanne
percebe o risco do desdobramento do Impressionismo - que criou uma
imagem cada vez mais diluída da realidade, baseada na impressão
e não na sensação, em que o contorno da figura
era engolido pela atmosfera caracteristicamente flou da pincelada
impressionista - e propõe que se segure a imagem a partir
dos elementos geométricos que a estruturam, ou seja, a partir
da lógica interna do espaço da tela, de forma a conservar,
através da objetividade pictórica, o espaço
para a subjetividade expressiva do artista. A proposta de Cézanne
é a de retornar aos elementos irredutíveis da representação,
enquanto realidade separada do mundo, para conservar a pintura como
campo expressivo; o que estava deixando de acontecer com o Impressionismo,
uma vez que estava mobilizado em perseguir objetivamente a representação
da luz a ponto de esquecer que, por detrás do ato de representar,
existe o sujeito da representação. Para efeito de
exemplificação, e guardando as devidas distâncias,
poderíamos dizer que o mesmo aconteceu entre nós com
o Concretismo. Foi necessária a invenção neoconcreta
como forma de expandir o campo da sensação para conservar
a objetividade da obra de arte enquanto obra de arte, que de outra
forma seria engolida pela objetividade concreta, que corria o risco
de transformar tudo em objeto, sem nenhum ancoramento expressivo.
Quando Gil Vicente concentra-se no plano, o que ele está
nos indicando é exatamente esse campo da sensação,
que ele não quer deixar escapar. O que ele está querendo
dizer é que ele não quer o imediatismo da matéria,
como na escultura, no objeto ou nas instalações, mas
a intermediação do plano como possibilidade do acontecimento
expressivo da sensação. Por isso que tem necessidade
da figura, como na série Sessenta cabeças,
em que a cabeça humana é dissecada nas múltiplas
sensações que ela pode provocar no artista. Esse vínculo
com a figura não é feito de forma abstrata - fruto
somente da imaginação -, ao contrário, ele
precisa que posem para ele, como na tradição dos modelos
vivos ou das naturezas-mortas ou das paisagens. A presença
do referente é importante para ele, não no sentido
da representação naturalista clássica, mas
no sentido da presença física como desencadeadora
do campo da sensação a que se refere Cézanne.
A sutileza e a contemporaneidade da obra de Gil Vicente está
nesse deslocamento que cria, como uma espécie de retomada
de questões da modernidade que pareciam adormecidas e que
podem nos ser úteis ainda hoje. Em outras palavras, a questão
da presença e da fisicalidade na arte atual é surpreendida
por Gil Vicente no plano bidimensional, através de uma manobra
à la Cézanne e próxima a Bacon, em que a obra
é constituída a partir da presença física
do referente, que é a sua garantia expressiva.
Mas há ainda um outro elemento que marca a obra de Gil Vicente,
é a sua pulsão autobiográfica, que está
presente nessa série de trabalhos que apresenta na Bienal
de São Paulo. José Cláudio, pintor e amigo
de longa data, referindo-se a Gil, disse que ele tem a ilusão
de que vai conseguir fugir de si mesmo, mas que não vai conseguir
não. Essa fidelidade a si mesmo é o compromisso que
Gil Vicente estabeleceu com uma tradição narrativa
pictórica e não ilustrativa da arte, a que devemos
ficar mais atentos na história da arte brasileira. Nessa
vertente, surpreendo artistas como Goeldi, Iberê Camargo e
Vitor Arruda, artistas dotados de grande imaginação,
figurativos e ao mesmo tempo com uma ligação com um
Brasil menos solar, povoado de tristeza e solidão. Esse outro
Brasil, que trai o discurso cultural dominante da alegria, é
um Brasil tímido, que está se fazendo cada vez mais
consciente, na medida em que a certeza da insuportabilidade de uma
longa história econômica e cultural, marcada também
por tristezas e sofrimentos, mina nossas convicções
solares. Gil Vicente faz coincidir sua biografia com essa visão
menos colorida do Brasil, criando uma narrativa pictórica
de estranhezas de um mundo em suspensão. Não são
ilustrações de sentimentos pessoais, mas são
apreensões narrativas de um mundo solitário e desprotegido,
que possui uma certa placidez da resignação. A obra
funciona, então, como um sorvedouro expressivo que dá
forma a essas duas forças: a pessoal e a social.
A visão da distância - o tomar distância de
- é o recurso estilístico que Gil Vicente utiliza
para evitar a ilustração. Narrar pictoricamente pressupõe
um afastamento, ilustrar pressupõe uma aproximação.
Por isso que ressaltei o fato de que a presença e a observação
do referente na construção da obra de Gil Vicente
é fundamental. Essa medida de distância que a presença
do outro estabelece é o recuo necessário para que
a sensação possa se estruturar expressivamente. É
muito comum surpreender pintores que se aproximam e se distanciam
do quadro enquanto estão trabalhando. Isso ocorre porque
precisam certificar-se desse afastamento corpóreo (da separação)
entre o artista e a obra. Essa distância é a medida
necessária para criar espaço de objetividade tanto
para a obra quanto para o artista. O ato criativo é uma pulsão
paradoxal que afasta para aproximar. Quando Gil Vicente se apega
ao plano e nele insiste é porque necessita da certeza de
separação de campos que o plano estabelece entre ele
e o mundo; entre o artista e a obra. E mais, radicaliza essa distância
recorrendo a uma perspectiva quase aérea em trabalhos como
Roda, Homenagem a Osman Lins e A roupa do meu pai
no porão ou fazendo uso do recurso de grandes áreas
negras, como em Repouso e em Último, onde as
figuras são lançadas na solidão do espaço
que as envolve.
Gil Vicente é um artista da figura. Para nós a figura
existe na sua obra como ponto de concentração a partir
do qual somos atraídos para a sua narrativa pictórica,
que trata fundamentalmente da solidão humana, que é
plasticamente determinada pelas grandes áreas de cor negra.
Para o artista, a figura existe como o ponto de referência
externo que necessita para poder exercitar sua imaginação
criadora sem se confundir com ela. Gil Vicente é um artista
da sensação, que busca nos elementos mínimos
da pintura o espaço para a sua solidão.
1.
Deleuze, Gilles. Francis Bacon - Logique de la sensation.
Éditions de la différence,
1996.
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Auto-retrato
Rorschach - eu e Maria Vasconcelos
2002
nanquim sobre papel
152 x 168 cm |
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Porto
1972
linoleogravura
31 x 20 cm
coleção Escolinha de Arte do Recife
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Sem título
1999
origami
6 x 5,5 x 21 cm
coleção do artista |
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Encontro com
ex-voto
1995
óleo sobre tela
130 x 92 cm
coleção particular |
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Artista e obra
1996
óleo sobre tela
80 x 100 cm
coleção Marcos Arraes |
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Sem título
1998
carvão sobre papel
200 x 150 cm
coleção Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro |
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José Cláudio
Estudo de escorço
2001
acrílica sobre tela
168 x 243 cm
coleção José Cláudio
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Auto-retrato
Rorschach – eu e José Cláudio
estudo
2002
grafite sobre papel
21 x 29,6 cm |
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Roda
2002
nanquim sobre papel
228 x 280 cm |
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Homenagem a Osman
Lins
2002
nanquim sobre papel
152 x 280 cm |
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