|
[
>
> >
]
|
Agnaldo Farias
Curador do Museu de Arte Moderna, Rio de
Janeiro
Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da USP / campus de
São Carlos
O desenho é grande, por volta de um metro e meio por um
e setenta. Para realizá-lo, o artista dividiu o papel em
seis pedaços iguais. Um papel espesso e resistente, capaz
de suportar as sucessivas camadas de nanquim com as quais ele era
empapado. Bastante poroso também. O nanquim escorria pela
sua superfície e infiltrava-se em seus alvéolos, como
se quisesse apagar desde dentro, do âmago, a luz branca e
intensa que de lá se elevava.
O processo continha poucos passos e o artista levava-o desenvolto,
sem se alhear do movimento em volta, um pouco ao ritmo da música
que aumentava o calor já grande daquela hora, consciente
dos funcionários que por ali trançavam desempenhando
suas tarefas, sem deixar de dar atenção ao amigo que
veio visitá-lo e que desfiava piadas recostado no batente
da porta para melhor aproveitar a brisa inexistente. Com a atenção
bifurcada entre dentro e fora do trabalho que estava executando,
ele definitivamente não possuía parentesco com a imagem
romântica do artista atormentado, para quem a solidão
e o silêncio são os únicos companheiros aceitáveis.
De quando em quando, aplicava com destreza pinceladas largas, carregadas
de nanquim, justapostas, até recobrir toda a área
previamente pintada. Em seguida, buscando uma difusibilidade maior
do nanquim, borrifava todo o papel até quase encharcá-lo.
Depois, sem amainar a conversa, esperava-o secar. Avaliava então
o resultado e reiniciava o processo.
Quem do desenho se aproximasse notaria que à sua frente,
fixado numa prancha de madeira, estava o projeto da obra; um desenho
limpo, executado em linhas finas numa folha branca comum. O que
no pequeno papel aparecia nítido, uma imagem cicatrizada
em definitivo no branco, no outro, naquele que carregava sua versão
ampliada, ao contrário, uma imagem branca e difusa esplendia
em meio à escuridão. Neste, não apenas os limites
da imagem eram borrados, como a própria superfície
pintada de preto era sutilmente descontínua, efeito produzido
pelas eventuais sobreposições de pinceladas e porque
também não se pode prever com exatidão o resultado
da névoa borrifada. As seqüências de nuvens fabricadas
pelo artista iam baixando lentamente sobre a superfície e
se podia adivinhar a suave destruição que elas provocavam
ao longo das faixas regulares de nanquim. A escuridão compacta
ia se dissolvendo e se estilhaçando em círculos cinzas
infinitesimais. A mesma água que inventava o cinza era a
responsável por levar o nanquim rumo às entranhas
do papel; tornava-o um líquido mais ágil, permitindo-o
escorrer pelas ranhuras e insinuar-se pelas frestas que davam para
os estratos mais profundos.
Por fim, a imagem que emergia do mar de nanquim: um nadador. Um
homem avança, abrindo uma fenda luminosa na escuridão.
Seu corpo está quase inteiramente submerso no negro. Não
está na horizontal, o que seria indicativo de um deslizar
contínuo e tranqüilo. Ao contrário, a linha diagonal
de seu tronco esclarece que seu movimento pelo negro é vagaroso.
Negros já são seus cabelos longos, como a cova de
seu olho esquerdo, ponto denso de sua face sombria. Mas o pouco
que do seu corpo se dá a ver é, embora crepitante,
luminoso. Sobretudo o ombro e o cotovelo direito que, em ângulo
aberto, indica a decisão e o sentido do avanço. Tingem-se
de sombra os dedos de sua mão prestes a trespassar a água.
São traços de tinta. O homem só e nu progride
pela extensão imponderável de preto, a cor que contém
todas as cores.
Gil Vicente define-se como um pintor. Mais precisamente, como pintor
figurativo. Desde o início, aos treze anos, na Escolinha
de Arte do Recife, ele travou contato com todos os aspectos relativos
ao ofício. Sua opção pela pintura figurativa
colocou-o ao lado da tradição mais fértil do
meio artístico pernambucano, representada por nomes como
Francisco Brennand, João Câmara, Gilvan Samico e, principalmente,
José Cláudio. Digo principalmente porque foi José
Cláudio quem teve maior ascendência sobre Gil Vicente.
Seja pelo universo temático, as paisagens e as figuras humanas,
seja pela pincelada carregada de energia para a melhor representação
das folhas de uma palmeira ou dos movimentos dos braços;
a pincelada em que a técnica refinada e precisa repentinamente
parece ceder lugar ao gesto trêfego, ocioso, premeditadamente
destrambelhado.
Por tudo isso é que analisar uma obra como a de Gil Vicente
nos faz compreender algumas proposições básicas
de uma das tradições mais ricas e bem cultivadas do
nosso meio artístico. Trazê-la para o Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro é uma maneira de garantir sua visibilidade,
demonstrar a singularidade da sua contribuição.
Gil Vicente vem construindo sua obra através de paisagens,
naturezas-mortas e retratos. Temas clássicos que ele vem
enfrentando com procedimentos típicos da contemporaneidade,
como o desenho de observação realizado com maestria
e que, no entanto, se vê perturbado por outros códigos
plásticos. Há, como se pode ver através de
um apanhado das obras dos últimos anos, uma busca de equivalência
entre linguagens distintas; o espaço pictórico como
um espaço de convívio entre operações
de linguagem de natureza variada. Um domínio dessa ordem
do universo plástico em níveis e ângulos diversos
é, como se pode supor, empresa que demanda tempo, paciência
e perseverança.
Para a pintura da paisagem, o artista, acompanhado de amigos como
Guita Charifker, Luciano Pinheiro, Samico, deslocava-se para fora
de seu atelier. O trabalho ao ar livre, consoante o ritmo da natureza,
a variação da luz, o interesse pela infinidade de
ângulos, termina por ser rápido. Atento à resolução
do binômio forma-composição, o artista desenvolveu
sua acuidade em reter da matéria vista o que lhe parece essencial,
sobrepondo a isso o melhor enquadramento, o ângulo capaz de
potencializar a imagem.
A natureza-morta, outro assunto de interesse do artista, é
laboratório de outro feitio, mais afeito ao estudo de cores
e das relações formais. Nada do espontaneísmo
anterior: trata-se de processo mais lento e que se inicia com a
composição calculada de elementos, na qual a armação
geométrica faz com as relações cromáticas
seu par problemático.
Mas é no retrato que a trajetória de Gil Vicente
obteve os melhores resultados e que o colocaram numa posição
única frente aos artista da sua geração. Até
recentemente, fiel a sua formação, seus retratos eram
preferencialmente realizados em sessões com modelos vivos.
Paulatinamente, a par da preferência por figuras isoladas,
os resultados, em que pese a familiaridade do tema, foram ficando
mais complexos, mais estranhos. Suas telas, mais e mais conscientes
do princípio de que o que cabe ao pintor é a fundação
de um espaço e não a representação de
um espaço já dado, afastavam-se dos modelos humanos
na razão direta em que se interessavam por tratá-los
exclusivamente como fenômenos da ordem da linguagem. Ainda
eram composições derivadas da acepção
clássica do termo imagens colhidas do mundo e construídas
no quadrilátero da tela com todos os cuidados que lhes são
peculiares: as relações entre as partes, a relação
fundo-figura etc., mas não há dúvida que já
se distanciavam perigosamente desse conceito.
A reorientação definitiva do seu percurso ocorreu
com a série Sessenta cabeças, apresentada ao público
carioca neste mesmo MAM, em janeiro de 1998, na exposição
Vista assim do alto mais parece um céu no chão, de
minha curadoria e que aconteceu como evento paralelo ao Salão
Nacional, numa edição de resto marcada pelo número
de bons jovens artistas pernambucanos que revelou a um público
mais amplo.
Com a série de cabeças, Gil Vicente põe de
lado as cores e vários dos instrumentos e recursos com os
quais ele leva seu ofício de pintor, para, armado apenas
de carvão ou nanquim, enfrentar o papel em branco. O retrato
aparece como única e obsessiva questão. Mas um retrato
que não o do corpo flagrado nas posições ordinárias
ou em poses montadas com arranjo: o retrato em 3X4, o retrato fechado,
o rosto. O rosto do outro. A primeira paisagem.
O tema do rosto mantém-se em sua longa duração
por toda a história da arte, aquém e além dela
mesma. Talvez porque diante da presença do rosto do outro,
recoloco e atualizo, por vizinhança perturbadora, o meu próprio
enigma. Entre as coisas com as quais convivemos cotidianamente,
venham elas da natureza ou dos homens, o rosto é a mais fascinante.
Talvez porque seu conhecimento, mais que outra coisa qualquer, traz
a promessa de mitigar nossa solidão e clausura.
Mas porque existe uma distância irremissível entre
eu e o outro, desenhar o rosto do outro significa também
inelutavelmente projetar um rosto sobre o rosto do outro. E é
por esse motivo que todos os retratos de Gil Vicente, divergindo
da sua produção anterior, são retratos imaginários.
Em preto-e-branco, os retratos, as cabeças, vão se
sucedendo em vistas de frente, de lado, do alto, de baixo, em meia
rotação; tão de perto que delas não
se percebem os ombros onde estão assentadas, ou quando já
aparecem de vez decepadas, como fragmentos de um manequim; podem
ser nítidas, cristalinas, realçando pormenores e encantando
pelo esforço em capturar o que é miúdo e discreto;
pode ser uma vaga efígie, um semblante nublado e misterioso,
subitamente rompido pelo vazamento de uma fração expressiva;
podem irromper de um emaranhado de linhas, como um brilho que a
luz vai buscar na profundidade; pode ser econômica, quase
nada, um rosto tão diáfano que se desenha contra o
ar; pode ser tão prolixa e suja que só a reconhecemos
após muito trabalho do nosso olhar. Eram sessenta. Hoje já
são bem mais e tendem ao infinito.
Apresentadas lado a lado, elas saturam pelo conjunto, o que potencializa
seus elementos internos, orientados agora não tanto pelas
questões compositivas já comentadas e que pertenciam
aos trabalhos anteriores, mas por outras noções, como
ritmo, força, tensão, expansão, desdobramento,
densidade, termos, enfim, mais abstratos. Explorando esses recursos,
o corpo desse trabalho composto de cabeças traz em si a pluralidade
de gestos do artista; diante dessas seqüências de cabeças,
várias delas beirando a abstração, nós,
os espectadores, colocamo-nos diante da dimensão plural do
nosso enigma.
|
 |
A volta
estudo
1998
grafite sobre papel
15 x 15 cm
coleção particular |
 |
A volta
estudo
1998
grafite sobre papel
15 x 15 cm
coleção particular
|
 |
A volta
1998
nanquim sobre papel
153 x 171 cm
coleção particular |
 |
Luciano no mar
1985
óleo sobre tela
38 x 46cm
|
 |
Fumaça
no seu olho
1983
óleo sobre tela
130 x 81cm
coleção Manoel e Thereza Souza Leão |
 |
José Cláudio
Retrato de Gil Vicente
1995
oléo sobre tela
85 x 65cm |
 |
Paisagem com
sapoti, cabeça e garrafa
1990
óleo sobre papel
50 x 65cm
|
 |
Figura no mosaico
2002
óleo sobre tela
190 x 95cm |
 |
|
Contraluz
1996
óleo sobre tela
115 x 90cm
coleção particular
|
 |
|
Desenho da série
Sessenta cabeças
1998
nanquim sobre papel
76 x 56 cada
coleção Museu de Arte Moderna Aloísio
Magalhães
doação IBM e Prefeitura da Cidade do Recife
(SIC)
|
|