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Uma descida aos infernos

José Cláudio

Eu sempre vou lembrar destes desenhos assim, como eles estão aqui, com essa leitura que vocês deram, como se fosse uma espécie de Capela Sistina, uma coisa que está ligada a este espaço aqui.

Acho que já disseram que tudo isso é retrato de Gil. Eu estava conversando com Eduardo Araújo: este aqui deve ser de outra pessoa, deve ter usado modelo, deve ter feito assim. Ele pode ter tirado até de figurinha de sabonete Eucalol, pode ter tirado de revista, de fotografia de jornal, mas o que importa é que é sempre auto-retrato de Gil.

Eu acho que Gil teve essa coisa que eu invejo loucamente. Hoje eu sou o cara velho, que é vitima de si próprio, que passa a vida oferecendo coisas ao público e tem uma hora que o público cobra. Então, sem querer, ele está inventando um monstro, que vai devorá-lo. Eu agora estou sendo devorado por esse monstro que eu mesmo inventei. As pessoas já vêm a mim querendo um quadro que ofereci durante a vida toda e aquela pessoa finalmente resolveu ter um quadro desse. Não interessa o que eu estou com vontade de fazer, eu tenho que parir aquilo.

Gil resolveu dar uma banana a tudo isso e entrar dentro de si próprio. Não ligar para toda a historia dele, a habilidade, a maravilha que é o desenho dele, os nus, que eu sempre também invejei demais. Sempre achei uma coisa incrível a habilidade que Gil tem, e não perdeu - você vê uma cabeça desta, é uma coisa assombrosa -. Mas enfim, o aspecto exterior da pintura dele, que já tinha aberto um lugar no mundo, ele resolveu mudar, ele teve a coragem de virar as costas e começar de novo, com toda cultura dele, com todo acervo, e entrar dentro de si.

O que está aqui, seja lá a cara de quem ele fez, eu vejo como uma descida aos infernos. É a coragem de se encarar nas suas horas mais tristes. Nada aqui é gratuito, nenhum traço é gratuito. A gente vê a cada quadro ele se vendo: ele se vê morto, ele se vê cadáver, ele se vê traindo a si mesmo - não só à sua pintura como a todas as convicções que lhe foram postas na cabeça desde criança, e sei lá a que fidelidades -. É como se ele jogasse tudo fora e voltasse. Como se ele se tornasse de uma hora para outra, diante do trabalho, um camarada completamente livre, amoral, aético, ateu. Eu vejo o quadro como se ele tivesse dizendo: Isso aqui é um pecado, é uma violência que eu pratico contra a coisa mais delicada que existe dentro de mim. E mesmo assim eu vou fazer isso.

Então, toda essa exposição para mim é uma viagem sem fim por dentro de si mesmo. E pelo lado mais trágico, mais desamparado. Aquelas horas que a gente se desmente e tem coragem de se aniquilar, de se trair. Eu acho até que o que se passou, ou está se passando com Gil, é uma queda muito dentro dele. Ele deve ter tido coragem de tomar uma atitude que até então ele não tinha decisão de assumir. E esta exposição não é somente uma modificação estética, é uma modificação filosófica, uma modificação que tem a ver com o sagrado que está incutido dentro dele e ele quis por à prova, quis destruir, emerdar, avacalhar, quebrar de todas as formas. Não sei se para libertar-se, e também para condenar-se de uma vez por todas e nunca mais ter medo de ser um monstro, de ser um vampiro, de ser um infame.

Depoimento improvisado no debate sobre a exposição Gil Vicente - Desenhos, no MAMAM, em julho de 1999.