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Figura heróica

Marcus de Lontra Costa

Diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães

Apesar das indiscutíveis premissas libertárias que embasam a teoria modernista, o fato é que a construção de um arsenal estético, regido pela verdade de seus elementos e pela objetividade científica de seus métodos, reflete o insucesso de uma ideologia racionalista que acabou comprometendo a vida de todo o planeta e justificou a ditadura de uma cultura dominante que despreza todas as manifestações oriundas de populações que não integram os centros do poder econômico.

O fracasso dessa ideologia modernista não significa, entretanto, que se vá passar uma borracha nas inegáveis contribuições do movimento e fantasiar-se de pequeno canibal histórico no carnaval autodenominado pós-modernista, espécie de marcha-rancho que busca afirmar-se através da negação e que sedimenta as suas bases num único acorde de elegia ao ego, o que resulta num subjetivismo estéril e redundante. O kitsch e a pieguice não são as armas mais adequadas para o gênero humano enfrentar os impasses do pensamento.

Nessa conturbada arena artística do final deste século, a arte busca aventurar-se por novas veredas, enfrentando a realidade e fazendo da pesquisa e do embate com a história uma ação construtiva. Os produtores artísticos de qualidade e talento dedicam-se, isoladamente, nas várias regiões do planeta, a criar artefatos compatíveis com o seu tempo e a sua realidade, incorporando componentes que revalorizem a construção de uma poética do sensível comprometida com uma nova ideologia humanista.

Dentro desse contexto, a obra de Gil Vicente insere-se com rara e oportuna pertinência, afirmando-se como uma das mais eloqüentes contribuições individuais produzidas em nosso País no chamado campo das artes contemporâneas, pois que ela se equilibra entre a objetividade formal modernista e a superação desses valores através da adição de uma poética de cunho subjetivo comprometida com a angústia humana.

As suas figuras, cabeças humanas em várias posições e expressões, registram a capacidade de o artista criar uma espécie de portentoso painel a homenagear o esforço, o drama e a alegria da essência humana. Trata-se de um épico, algo assim como uma antropologia da anônima figura heróica, a ser cantada e decantada pela arte, aqui e sempre compreendida como agente de transcendência, verbo superador da condição miserável do Homem em seu destino vago e sua ciência indecifrável.

Por outro lado, as suas cenas parecem ressaltar a tristeza e a pequenez da vida diante da morte, da violência, dos gritos e dos pavores de seres que surgem atormentados em meio a uma névoa cinza, trágica e tensa como a de uma atmosfera sem vento. A arte como trans/forma/ação de uma experiência real, vivida numa única cena, no teatro que funda e funde o drama, a dor, a alegria e o riso, o homem morto, o homem vivo, o tudo e o nada.

Para criar esse universo de trágica e silenciosa beleza, o artista utiliza-se do desenho como instrumento de linguagem. Ele valoriza a ação de uma técnica sofisticada e inicial que registra o gesto humano ao mesmo tempo que delimita as áreas do espaço da ação artística através da primazia da linha. Projeto e realidade, o desenho é a marca dos corpos no campo bidimensional. Ele é a evidência, a clareza, o ordenador dos elementos, o definidor das formas, o controlador das matérias.

O perfeito domínio de seus meios de expressão faz com que o artista execute uma obra regida pela precisão, na qual a intenção e o gesto encontram-se em absoluta consonância. Virtuoso, Gil Vicente utiliza-se de seu talento, sem incorrer nos perigos da elegância gratuita de uma artesania bem elaborada, para investir numa metodologia obsessiva, em que o rigor e o ato de decisão de cada movimento fundam a ação artística.

Ao revés das imagens que surgem através das brumas, em Gil Vicente essas imagens parecem ser geradas pela bruma, herdeiras da opaca densidade da grafia. A imagem não é, portanto, o resultado de uma desconstrução da paisagem ou da figura; ela surge através de uma realidade abstrata que a precede. A obra é o resultado de uma deliberada conjugação dos gestos determinantes que se articulam para a formação de forças elementares que trazem à tona toda a complexa beleza da expressividade humana.

Fiel aos seus princípios, à sua sina, ao seu dever, o artista caminha pelo mundo, sobre o tempo, entre as calmarias e as tempestades, realizando o seu ofício, reciclando constantes mistérios, elaborando novas equações, novas maneiras de ver e compreender o mundo. Gil Vicente segue o seu caminho, navegante entre as estrelas, o mar e os portos. E a constante surpresa de sua obra nos faz enxergar o mundo como ele deve sempre ser visto: com a ternura dos idosos e o encantamento dos meninos. "Navegar é preciso. Viver não é preciso."


Noventa e oito cabeças
1998
lápis de cor sobre papel
9,5 x 7 cm cada
coleção Amalia Giacomini


Sem título
estudo
1999
grafite sobre papel
21 x 15 cm

 

 

 

 

 

 





Sem título
1999
carvão sobre papel
200 x 150 cm



Paralelo
1999
nanquim sobre papel
153 x 171 cm


Sem título
1999
carvão sobre papel
200 x 150 cm



Sem título
estudo
1999
carvão sobre papel
31 x 22 cm


Sem título
1999
carvão sobre papel
200 x 150 cm
Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro