Concepção e edição: Aimeê Ferreira, Bruno Zaitsu, Midori Motoki e Tamira Waki.
Música (composição): Cecilia Rosa e Pedro Ungaretti.
Música (estúdio e mixagem): Georges Boris.
Agradecimentos a Áurea Ferreira por ter cedido sua casa.
O vídeo "Abulia", baseado na obra "Homenagem a Osman Lins", de Gil Vicente, foi o trabalho final do nosso grupo para as matérias "Projeto Visual 5" e "Tecnologias Audiovisuais", ministradas no curso de Design da Fauusp. Sua edição foi finalizada em junho de 2009.
A proposta de ambas as matérias era de fazermos um vídeo sobre um designer ou artista, e, após discutirmos sobre os possíveis homenageados, decidimos por escolher Gil Vicente e sua belíssima obra "Homenagem a Osman Lins", exposta na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002.
Sobre a feitura do vídeo
Resolvemos nos basear na nossa interpretação da obra, e, sendo assim, a observamos e chegamos à conclusão de que a maior questão que levanta é a dúvida. Passado o possível gozo da desgraça alheia (como Machado de Assis descreve em seu soneto "Suave Mari Magno"), não se chega a uma conclusão; chega-se a uma dedução: não existe certeza em se afirmar que a personagem está viva ou morta.
Quando começamos a traçar o roteiro do vídeo, percebemos que era necessário conhecermos o psicológico da personagem. A primeira indagação foi: o que levaria uma pessoa ao suicídio? Questionamos se isso era um ato corajoso ou covarde, e percebemos que isso fica a cargo do expectador concluir: vimos até mesmo dentro do grupo diferentes opiniões sobre isso.
Suicídio é um ato muito extremo. Isso nos levou a crer que a vida da personagem já não é vida: é arrastada e sem grandes objetivos. Não deixamos claro o que levou a personagem a desistir de viver (tanto em seu cotidiano – já que as pessoas podem desistir da vida e continuar vivendo – como no suicídio), assim como na obra de Gil Vicente.
Traçamos, então, o seu cotidiano. Pensamos em dar um tom atemporal ao vídeo para que o público se perca no tempo junto à personagem: percebe-se que são vários dias da mesma monotonia. Na escolha das cores, resolvemos pelo preto e branco, remetendo a todos os valores que ambas as cores dão à pintura de Gil.
Quanto à técnica, optamos pelo Stop Motion, em que várias fotos são tiradas e, quando juntas, dão a impressão de movimento. Achamos que sua estética se encaixaria muito bem na história do personagem. A passagem de uma foto pra outra dá uma leve atravancada no ritmo, o que representa um pouco a vida dessa pessoa: tudo representa um obstáculo, uma dificuldade.
Não quisemos deixar muito óbvia a questão do suicídio no vídeo inteiro por uma questão de respeitar o nosso pré-requisito de deixar a dúvida e, por isso, optamos por mostrar cenas que são possíveis de acontecer na vida de qualquer um.
A edição da fotos foi feita ao longo de, aproximadamente, dois meses: correção de cor, luz e de eventuais detalhes que não queríamos presentes no vídeo. A edição do vídeo foi feita após termos a música pronta para que a passagem das fotos fosse sincronizada com o ritmo da música.
Sobre a feitura da música (um relato de Pedro Ungaretti)
No momento em que me vi encarregado da trilha sonora, as primeiras idéias que surgiram utilizariam somente ecos, sons contínuos sutis. Um modo delicado de abordar a temática mórbida do vídeo. A música iria se referir mais à personagem feminina do que à depressão dos seus dias. Entretanto, os primeiros testes usando o computador e minha ignorância técnica para com os programas de gravação me fizeram desistir da idéia e pensar que talvez o melhor caminho fosse, mesmo, o violão e uma música que utilizasse menos o computador.
No encontro de 6 de junho de 2009 cheguei a uma linha melódica que parecia ter potencial expressivo, extensivo (no sentido de poder variar pelo menos o suficiente para preencher o tempo do vídeo sem criar monotonia) e ainda agradava aos outros integrantes do grupo. Sobretudo, era simples, pré-requisito ao se lidar com uma trilha sonora – a música deve ser plano de fundo para a ação que se desenvolve na tela, dar respaldo a ela e ajudar a delimitar o campo de interpretações possíveis por parte do espectador, e não se sobressair à imagem.
A melodia lidaria com poucas variações e o uso de alguns ligados (quando se chega a uma segunda nota com um movimento da mão esquerda, sem atacar as cordas novamente com a mão direita). As notas viriam em um ritmo bem marcado, assim como os graves. Se estes teriam alguma variação ainda estava em aberto.
Em Abulia temos uma única personagem solitária. Sua condição, até onde podemos imaginar, é auto-imposta e tem como responsável sua indisposição para se pensar e, assim, mudar. Dessa forma, seria coerente se tivéssemos somente um instrumento fazendo o fundo musical e que os ecos de suas notas fossem os responsáveis pela ambientação da música em uma melodia que fosse alheia a qualquer andamento que fugisse da monotonia, da repetição, da rotina. Entretanto, abriu-se mão dessa coerência tão fervorosa em prol de uma música de carga emocional maior, que pudesse ser expressiva e eficiente nessa expressividade. Com o tema selecionado em 6 de junho, somente o violão não passaria tudo o que queríamos transmitir com a trilha sonora.
Dessa forma, chamei uma amiga, Cecília Rosa, violinista por prazer, para participar do projeto. O violino parecia extremamente adequado: suas notas longas criariam a atmosfera que o violão, sozinho, não conseguia bem fazer. Essas mesmas notas ainda dariam um tom mais feminino à música, que estava, até então, fundamentada nas notas curtas de ritmo constante (notas marteladas) do violão.
O uso do segundo instrumento ainda nos permitiria explorar possíveis dicotomias da personagem, como a monotonia da rotina em contraposição à tensão que esta desenvolvia dentro da protagonista. Além disso, nos aproximaríamos da estética preto e branco do vídeo: duas cores e seus diálogos (os tons de cinza) criando a imagem; dois instrumentos e suas interações criando a música.
No dia 21 de junho nos reunimos na casa de nosso terceiro parceiro, Georges Boris, para gravarmos a música.
Após as gravações e mixagens dos instrumentos, Georges deu uma nova sugestão: colocar chiados no fundo da música para dar mais volume a ela. Essa foi acatada, pois além de um efeito ambientador eficiente, os chiados eram muito coerentes com a temática e a estética do vídeo. Chiados gravados, selecionados e adicionados ao violão e violino – tínhamos nossa música.
Referências
MOTOKI, Debora Midori Suguri. “Análise da obra ‘Homenagem a Osman Lins’, de Gil Vicente e do vídeo Abulia”. Trabalho acadêmico apresentado ao Prof. Doutor Anderson Vinícius Romanini, para a matéria Teorias do Signo, São Paulo, 2009.
UNGARETTI, Pedro. "Música 4 e Abulia". Trabalho acadêmico apresentado ao Prof. Doutor Anderson Vinícius Romanini, para a matéria Teorias do Signo, São Paulo, 2009.
Gil Vicente Homenagem
a Osman Lins 2002
nanquim sobre papel
152 x 280 cm
coleção Paulo de Tarso de Freitas Veloso
Eu estava correndo na praia no final da tarde, como de costume. O sol já desaparecia e o vento era brando. Naquele trecho, a manta escura do mar era rompida apenas por um homem que boiava solitariamente. A cena chamou minha atenção e lembrei logo do conto O navio, de Osman Lins. Assim que cheguei em casa fiz um pequeno esboço da imagem. Nos quarenta dias seguintes eu lutei por um bom resultado em grande formato, e finalmente Homenagem a Osman Lins integrou o conjunto de desenhos que mostrei na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002.