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Gil Vicente visita a pintura
Prof. Dr. Agnaldo Farias
FAUUSP
Os últimos cinco ou seis anos foram exclusivamente dedicados
ao preto sobre o branco, ao silenciamento das cores com as quais
até então, e desde sempre, ele havia diariamente convivido.
O artista empunhava o pincel entintado de nanquim e se debruçava
sobre o branco do papel. Os gestos rápidos riscavam a claridade
como relâmpagos às avessas, produzidos pela noite.
Depois, como que atenuando a tensão estabelecida pelo desenho,
própria da densidade de tudo aquilo que é de natureza
gráfica, ele vaporizava a superfície do papel até
empapá-lo, dissolvendo a massa espessa do preto, fazendo-a
escorrer pelo branco rumo ao cinza, cinza claro, até se transformar
numa nódoa pálida e quase imperceptível, até
esgotar seu impulso diante das sobras do branco. O motivo, ao menos
no início desses anos, era invariável: o retrato.
A série copiosa e infindável de Cabeças. O
que, de resto, funcionava como uma espécie de recuo tático
a uma questão central e ancestral das artes do desenho e
da pintura. Afinal, deter-se sobre o rosto, seu ou outro qualquer,
ou mesmo sobre um rosto inventado, sempre equivalerá a se
deter sobre um enigma. Assim, junto com a redução
da paleta de cores ocorreu a drástica redução
do elenco das coisas a serem tratadas. O rosto como tábula
rasa.
Aos poucos, embora mantendo sempre o preto sobre o branco, os rostos
foram cedendo espaço para outras coisas, para cenas perturbadoras
e soturnas, com pessoas, objetos e bichos submersos na escuridão.
Quem visitou sua sala na 25a Bienal de São Paulo se lembra
bem. A sala de Gil Vicente ficou consagrada como uma das mais importantes
de toda a exposição. Uma surpresa para quem não
pensava que a figuração ainda podia dar tanto.
Ponto de inflexão, o período que se seguiu à
sala da Bienal foi dedicado a um silêncio demorado. Durante
esses dois anos, à maneira de um intermezzo, Gil Vicente
produziu a exposição Alheio, que itinerou por algumas
capitais. Os trabalhos expostos, um conjunto surpreendentemente
variado, denunciavam sua ânsia em experimentar outras formas
expressivas - fotografia, colagem, objeto, escultura, desenho e
pintura - e seu desejo de render tributo a alguns de seus colegas,
cujas poéticas repercutem em seu próprio trabalho.
Aloísio Magalhães, Paulo Whitaker, Alexandre Nóbrega,
Manoel Veiga, Marcelo Silveira, entre outros, foram, por assim dizer,
"visitados" - o verbo utilizado pelo artista para designar
esse movimento de encontrar no outro uma parte de si mesmo.
Para esta exposição na Galeria Nara Roesler, Gil Vicente
oferece-nos o primeiro resultado de sua busca iniciada depois do
encontro com os outros; um périplo lento e rigoroso ao fim
do qual ele se coloca, mais uma vez, depois de um largo intervalo,
diante da pintura. Visitando-a, enfim, para avaliar seus elementos,
sua razão de ser, a maneira como ela funciona. Do mesmo modo
que freqüentou os sistemas desenvolvidos por alguns de seus
colegas, percebendo-lhes a lógica, pretendendo internalizar,
por meio da imitação, seus procedimentos e macetes,
como se essa estratégia lhe facultasse o acesso àquilo
que até então não lhe pertencia de direito,
a não ser na esfera do desejo. Nesta sua mostra atual, Gil
Vicente freqüenta a pintura em várias de suas possibilidades,
como que inventariando e revolvendo tudo o que até aqui ele
conseguiu acumular.
Integralmente realizados em guache, material de natureza dócil,
despojado que é da densidade e da inércia típicas
do óleo, esses trabalhos sobre papel devem ser compreendidos
como uma ampla gama de exercícios, um conjunto de proposições
diversas sobre as possibilidades da pintura. Variando na ênfase
dada a cada um dos elementos, neles encontramos cores, gestos, volume,
espaço, figuras, manchas, a verificação calculada
do que pode suceder com a sobreposição entre o desenho
e os planos coloridos, entre o gráfico e o pictórico.
A recorrência deste último aspecto nos faz lembrar
que a longa permanência no território do desenho, dedicado
a lidar em profundidade com os problemas que lhe são característicos,
impregnou-o a ponto de ele, que até alguns anos antes era
conhecido principalmente por seus dotes pictóricos, não
resistir em confrontar os dois sistemas, testando suas possibilidades.
A figura humana, a representação de objetos - mesas,
roupas, volumes geométricos, outras formas indiscerníveis
-, com suas sugestões de volumetria e apego à realidade,
são sobrepostos a planos coloridos que tanto podem cobrir,
mais ou menos homogeneamente, a superfície do papel quanto
serem livremente aplicados em faixas, esgarçados, conservando
brancas, intocadas, porções inteiras do suporte. Embora
a pintura e o desenho sejam termos distintos entre si, com a primeira
muito mais afeto as qualidades substantivas das coisas, mesmo quando
a coisa em questão seja a própria cor aplicada na
superfície do plano de tecido ou papel. Já o segundo
é concernente ao raciocínio, a capacidade de apreender
o visível por seus contornos e estruturas; nesses trabalhos,
tanto a pintura quanto o desenho resultam de uma expressão
que consome muita energia para existir.
As cores, não só quando vivas e contrastantes como
também quando definem volumes densos e regulares, como aquela
pintura que nos traz uma composição semelhante a uma
paisagem montanhosa modificada pela memória, ou aquela que
estampa um ângulo esconso formado pelo provável encontro
de um pé de mesa com seu tampo, ou nada disso - nunca saberemos
ao certo -, que podem ser definidas como a relação
de um pilar com a laje que ele sustenta; seja como for, as cores,
mesmo quando se encaixam em formas definidas e identificáveis,
são sempre perturbadas, alteradas por outras cores que habitam
camadas subterrâneas mas que afloram aqui e ali, rompendo
qualquer pretensão de estabilidade.
A variação da transparência das cores faz com
que percebamos o espaço que ela é capaz de definir.
Embora seja um fenômeno que ocorre colado à superfície
de um plano - no caso, do papel -, ele se projeta em direção
a atmosfera para alterá-la. Trata-se, pois, de um espaço
real. O mesmo já não pode ser dito sobre o desenho,
cuja planaridade é um dado constitutivo, por mais que simule
possuir um corpo que não tem. A matéria minguada do
desenho, a linha, será sempre coisa pouca, ainda que capaz
de ferir a pureza do papel e levá-lo a suportar o peso da
expressão e do sonho. Homologamente à fatura pictórica,
os desenhos aqui apresentados são mais ou menos alusivos,
e mesmo quando perfeitamente compreensíveis, como o corpo
do homem de quatro com a cabeça apoiada sobre o chão,
ou como o conjunto de mesas espalhadas por um espaço azul,
pintura exemplar no confronto entre os espaços cromático
e pictórico, traem bem a origem do gesto que os produziu,
um impulso vital impossível de ser totalmente controlado.
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