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Entre setembro/2005 e setembro/2006, José Cláudio comentou
quatro vezes a série Inimigos na sua crônica mensal
no Suplemento Cultural. Os textos estão aqui na sua seqüência
original.
"Penetrai nesse pélago profundo"
José Cláudio
(Suplemento Cultural do Diário Oficial,
Recife, ano XX, setembro 2005, p15)
Como de política não entendo bulhufas nem nunca quis
entender, nem saber por onde passa o rio do dinheiro, nem o que
é lei, nem quais são, nem por que são feitas,
nem para que serve fora os mandamentos da lei de Deus e os da santa
madre igreja católica em que fui criado, destes não
me lembrando direito mais, confesso; como pois não me dedico
nem dou maior atenção ao assunto, nunca me dispondo
a deslindar no juízo o complexo organograma dos três
poderes, cada qual com suas complexidades, se eu fosse falar de
política seria como aquele discurso que tanto serve para
enterro como para casamento e não sei o que mais, do qual
lembro a frase: "Penetrai nesse pélago profundo".
Há quem pense que em política vale tudo. Que democracia
é para rico, campanha se faz com dinheiro, pobre só
se elege se testa-de-ferro de rico, eternizando-se a plutocracia.
Resta a alternativa de ir buscar dinheiro onde ele estiver, não
importa a que custo; roubando, mesmo às claras, assaltando
banco, a metralhadora no meio da rua como fez Lamarca, sacrificando
a vida e até, o que exige coragem maior, a honra: escandalizar-se
com isso é ou ignorância ou hipocrisia, não
existindo em política mãos limpas. Ou sujas.
Para não deixar a página em branco, vão três
sugestões de um dos nossos maiores artistas, o pintor Gil
Vicente, que sempre nos surpreende pela intensidade e originalidade
de suas obras e pela competência inigualável de seu
traço.
Gil Vicente (I)
José Cláudio
(Suplemento Cultural do Diário Oficial,
Recife, ano XX, fevereiro 2006, p15)
Duas noções incompatíveis: Deus e democracia.
Deus é absoluto, único, singular; democracia é
plural, surgindo as leis depois de discutidas sem que nada exista
antes e sim passe a existir depois dessa discussão onde todos
têm direito a voto. Já a palavra de Deus não
se discute; ou você obedece ou não obedece, e aí
arque com as conseqüências, mas onde não cabe
argumento porque o pacote já vem pronto do Alto. Ou se vive
numa teocracia e aí Deus ou seu representante na terra tudo
pode, ou seguimos leis vindas daqui de baixo dos humanos e aí
o que tiver origem no divino estará descartado.
Outro dia, num restaurante, um cidadão declarou enfaticamente,
dando uma grande tapa no tampo da mesa capaz de quebrar os copos,
que o único povo que tinha direito a ser dono de terra era
o dele porque esse direito tinha sido dado por Deus, por Deus em
pessoa, terminou num grito. Era de se perguntar se os ateus ou os
que crêem em outros deuses também tinham de respeitar
esse direito dado pelo Deus dele: já pensou se a moda pega?
Ainda bem que os orixás africanos ou os caboclos do catimbó
parece que têm mais juízo, são mais contidos
nessa espécie de reivindicação: é possível
que as tradicionais perseguições a esses cultos tenham
enxergado mais longe e não se preocupavam propriamente com
êxtases pessoais nem o sossego noturno.
No caso do Brasil, a terra foi distribuída pelo rei, tendo
o direito divino de fazê-lo, com a aprovação
do papa sem a qual ninguém podia ser rei, pelo menos na Europa.
O próprio rei da França, rei por direito divino, perguntou
onde estava escrito que metade das terras descobertas ou por descobrir
pertenciam ao rei da Espanha e a outra metade ao de Portugal.
A lei até agora, apesar de se dizer emanada do povo, não
fez mais do que perpetuar a emanação divina desse
Deus que nos surpreendeu em 1500: se ainda fosse Tupã...
Mas a lei de Tupã foi arquivada por armas, germes e aço.
Por sua vez, o mesmo Deus que mandava lá na Europa e passou
a mandar aqui está sendo arquivado por outro que se chama
God (ver "Segundo colóquio" no livro "México"
de Érico Veríssimo, o que diz o historiador José
Vasconcelos). E o curioso é que justamente adotou o apelido
de "Democracia", fazendo lembrar o discurso do orador
integralista que ouvi pela PRA-8 quando era menino, esqueço
o nome dele, lembrando que "demo" também significa
"demônio", idéia lançada por God-Bush
aos desafetos, "o império do mal" (the empire of
evil).
Ora, isso tudo só pode provocar na cabeça do cidadão
uma reação: sair degolando tudo que se identifique
com o mando no Brasil e no mundo.
Gil Vicente (II)
José Cláudio
(Suplemento Cultural do Diário Oficial,
Recife, ano XX, março 2006, p15)
Apesar do título "Gil Vicente (II)", esta é
a terceira croniquinha sobre a série que o pintor chamou
de "Os inimigos". Esta "Gil Vicente (II)" tem
como motivo duas observações: uma feita pelo pintor
Roberto Ploeg e outra saída mesmo da minha cachola. Digo
"terceira croniquinha" porque em set./05 saiu a primeira,
intitulada "Nesse pélago profundo"; sendo "Gil
Vicente (II)" pois a terceira.
De início, quando escrevi pela primeira vez, conhecia apenas
três desses auto-retratos: matando Lula, matando Bush e matando
Bento XVI. Aí Roberto Ploeg comentou, de boca, aqui em casa,
que no de Lula era onde havia mais realismo, mais objetividade na
consumação do ato de matar, mais primarismo no método,
à faca, e maior proximidade do executor, como se se tratasse
de caso pessoal, homem a homem, não havendo espaço
para negociação: a mão do homem Gil segura
pelo cabelo e degola o homem Lula; sente que está sendo cruel
e que ser obrigado a isso o repugna mas não abdica de fazê-lo,
envolvendo-se fisicamente na matança.
Já no auto-retrato matando Bento XVI há uma distância
entre o matador e o réu, como se o carrasco ainda guardasse
algum respeito, deixando à vítima as mãos livres,
espaço para argumentação. Dos três, Bento
XVI é o único que não está em posição
humilhante: Bush ajoelhado com as mãos para trás e
Lula amarrado.
Também nos demais auto-retratos, que tanto eu quanto Ploeg
só vimos depois, a ênfase está sempre nos brasileiros,
em especial o de Eduardo Campos, seguro pelo paletó, por
trás, encostado na parede com as mãos para cima, como
se quanto mais próximo mais merecesse castigo, e assim Jarbas
e Fernando Henrique, revólver encostado na cabeça.
Já Kofi Annan, Ariel Sharon e Elizabeth II, não há
contacto da arma.
Quanto à observação minha, é que quando
comecei no Atelier Coletivo em 1952, dirigido por Abelardo da Hora,
havia um quase veto a auto-retratos. O espaço sagrado do
quadro devia ser mais bem empregado, com assunto mais dignificante,
para falar do povo brasileiro, no seu labor ou nas suas diversões,
o trabalhador de enxada ou o gari, como eu fiz pintando uma oleira,
Wellington os calceteiros, Samico o pescador de puçá,
Wilton o vendedor de cavaco etc. seguindo o exemplo dos muralistas
mexicanos, rumo apontado aliás muito antes por Gilberto Freyre,
fazendo arte de protesto como os retirantes de Portinari, e não
o narcisismo, a autocontemplação, o individualismo
mórbido dos auto-retratos.
Ninguém acreditaria servisse um belo dia o auto-retrato
para quadro de protesto, e não de uma maneira eufêmica,
simbólica, mas o autor vestido dele mesmo e numa série
inteira e não um trabalho esporádico.
Dia de alegrias
José Cláudio
(Suplemento Cultural do Diário Oficial,
Recife, ano XXI, setembro 2006, p15)
Apesar de ter escrito várias vezes sobre a série de
desenhos monumentais, no tamanho e na qualidade, "Inimigos"
de Gil Vicente ainda me sobrou matéria. Não que desse
tratos à bola para estender o assunto ou me esforçasse
para espremê-lo até o último sumo. Tinha até
deixado de pensar no caso, eu e Roberto Ploeg, não sem uma
certa frustração, minha e dele, por não termos
encontrado em toda a história da arte um antecedente de um
pintor num auto-retrato a sério degolando alguma personagem
como no "Auto-retrato degolando Lula" por exemplo; ou
outros da série de Gil, apontando revólver para Kofi
Annan, Bento XVI, Elizabeth II, Ariel Sharon e outros, empurrando
a vítima contra a parede, ou amarrada numa cadeira, ajoelhada
ou deitada no chão mas com o revólver à queima-roupa.
Ora se deu que chegou o pintor Fernando Areias e me mostrou uma
beleza de livro que trouxera de Portugal, estudos e variações
de Picasso sobre o "Almoço na relva" de Manet ("Pablo
Picasso/Les Déjeuners", texto de Douglas Cooper, Éditions
Cercle d'Art, Paris). Sem ter nada com a série de Gil Vicente.
Na apresentação do livro o autor fala no "Concerto
Campestre" de Giorgione. Fui logo na coleção
"Gênios da Pintura" certo de encontrar a pintura
no álbun de Giorgione. Eu jurava que tinha esse álbum.
Lugar mais limpo. No dia seguinte a primeira coisa foi ir a um sebo
em busca do tal álbum. Achei. Mas sem a reprodução
do "Concerto Campestre". Alguns atribuem o quadro a Tiziano,
como num livrinho do Louvre em que fui achá-lo enfim.
Mas, maravilha: ao folhear as páginas de texto do álbum
de Giorgione dou de cara com um auto-retrato do pintor, uma gravura,
isto é, ainda mais próximo do desenho, porque em preto
e branco, do que se fosse pintura, segurando a cabeça recém-degolada,
o sangue escorrendo, de Golias!
Um dia de alegrias. Na ocasião, encontrei, no sebo, ali na
Corredor do Bispo, com José Luís, que eu acho que
somente vira quando ele ainda criança, hoje professor de
literatura brasileira nos Estados Unidos. Para comemorar o encontro
presenteei-o com um exemplar de "Viventes das Alagoas"
que lhe faltava na coleção de Graciliano. Comprei
dois exemplares, um para mim e outro para ele. Quando abri o meu
em casa, outra surpresa: ilustrações em xilogravura
de Emanoel Araújo, que conheci no atelier de Carybé
na Bahia.
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