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Inimigos de Gil Vicente

Roberto Ploeg

(Publicado na coluna de José Cláudio no Suplemento Cultural do Diário Oficial, Recife, ano XX, abril 2006, p15)

Gil Vicente mostra na sua última exposição com o título de "Inimigos" ter um domínio total sobre um desenho maravilhoso. Gil não teme dificuldades e encontra soluções surpreendentes. O desenho é vigoroso. O traço, às vezes, gestual e, ao mesmo tempo, certeiro. Alguns destaques: o traçado dos pêlos no braço em "Gil Vicente matando Ariel Sharon", a textura do vestido da rainha Elizabeth II, as mãos dela em repouso. Se for procurar defeitos, é difícil achar um. Talvez a ansiedade de matar Bush causou uma ligeira desproporção no desenho que faz com que a cabeça de Bush pareça colada sobre um corpo estranho.

Diante do desafio de fazer uma leitura interpretativa de "Inimigos", creio que a gente não deve se guiar pelo título das obras: "auto-retrato matando...". A palavra auto-retrato nos coloca no caminho do conhecido gênero de auto-retrato na pintura clássica e moderna. Este não traz muita luz, a não ser que deixa claro que no caso de Gil se trata de algo diferente, como me disse José Cláudio, afirmando que são auto-retratos com insistente dimensão política devido à ação dos retratados e ao número de desenhos (uma série de nove).

O registro da arte contemporânea situa, a meu ver, melhor a obra de Gil. Em várias expressões de arte contemporânea, o artista desenvolve uma "performance", um papel performático. Nas encenações que ele ou ela cria, o ator ou a atriz principal é o próprio artista ou, se quiser, a imagem do seu corpo. Nem sempre a intenção é fazer um auto-retrato. Trata-se de uma explicitação da subjetividade na relação interpretativa e criativa com o mundo.

Alguns exemplos: a partir dos anos '60, o alemão Joseph Beuys (1921-1986) e o norte-americano Andy Warhol (1928-1987). A partir dos anos '80 os ingleses Gilbert (1943) e George (1942) que se autodenominam "living sculptures"; a norte-americana Cindy Sherman (1954) que sempre se autofotografa em papéis e situações variadas; ou um caso específico de Jeff Koons (1955), que na Bienal de Veneza em 1990 fez uma instalação com esculturas e fotografias dele mesmo tendo sexo com sua esposa na época, a atriz pornô "la Cicciolina". Para ficar mais perto de casa: no último salão pernambucano de arte, Rodrigo Braga (1976) que transformou sua própria cara numa cabeça de cachorro, Oriana Duarte (1966) que documentou o "bungee-jump" que ela mesma fez.

No caso da exposição "Inimigos", a cena é de um seqüestro de alguma figura ilustre do palco político nacional e internacional, todos de gravata, o Papa de mitra, a rainha de coroa. O seqüestrador e matador é o próprio artista, Gil Vicente, vestido informalmente como um cidadão comum. Na sucessão dos desenhos são as poses da interação entre "os inimigos" e o "serial killer", o, por sinal, pacato Gil Vicente, que fazem a diferença. Retrata-se o desabafo crítico do artista. Gil Vicente desenha uma metáfora para expressar o grau de sua indignação e desilusão. A imagem que usa e intensifica é a triste, reprovável e, infelizmente, conhecida cena espetacular da televisão e da internet. Gil ficou tão revoltado quanto quem seqüestra e mata por motivos políticos e/ou religiosos.

A subjetividade e corporeidade, tão explicitamente presentes nesta série performática de Gil Vicente, a qual, portanto, recebeu a referência "auto-retrato", estão, a meu ver, imbuídas de maneira implícita e anônima na maior parte de sua obra. O tema predominate da arte de Gil seria ele mesmo. Claro, tem auto-retratos isolados e titulados como tal, por exemplo, o belo "auto-retrato colocando remédio no ouvido" (1988). Tem os "auto-retratos Rorschach" de 2001-2002. Mas há auto-retrato onde Gil Vicente não usa esse título. Lembro as pinturas "Encontro com ex-voto" (1995) e "Contraluz" (1996), as figuras com pose de mãos no quadril ou braços cruzados que é a linguagem corporal do próprio Gil, por exemplo, "Figura transparente" (1991) e "Figura verde" (2000) e, sobretudo, as séries de 60 cabeças (1997) e 30 cabeças (1998).

As séries de cabeças de Gil Vicente me lembraram o painel de cabeças negras feito pela sul-africana, residente na Holanda, Marlene Dumas em 1991/1992, também em nanquim sobre papel. Chama-se "111 desenhos pretos". São retratos de negros e negras. O painel critica qualquer estereotipia racista que não vê mais nada além da cor da pele, tipo: "todos os chineses se parecem". Por sinal, na última bienal de São Paulo foi apresentado um conjunto semelhante de retratos pelo artista chinês Chen Shaofeng. A intenção e a dimensão política estão claras.

Isto não é o caso na série de cabeças de Gil Vicente. Esta não tem intenção política nenhuma. Elas não são miméticas em relação à realidade, nem em relação ao rosto dele mesmo. Nada explícito como nos auto-retratos em água-forte do jovem Rembrandt fazendo mogangas ou no exibicionismo erótico de Egon Schiele. As cabeças de Gil são introspectivas. São experimentações com a forma. São expressões de estados de emoção. Gil não chama essas cabeças de auto-retrato, mas são auto-retratos, são suas as cabeças como é dele a raiva do seqüestrador em "Inimigos".

(Olinda, 12 de janeiro de 2006)