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O energúmeno
Valquíria Farias
Os desenhos são auto-retratos1.
Neles, uma reação enérgica é investida
contra nove representantes de instâncias do poder político-social
e religioso. A reação. Uma figura, a vítima,
empunha agressivamente uma arma contra o seu opressor, a
outra figura. O realismo cruel de cada cena entre esses dois personagens
é indicativo do destino fatal que um terá. Em uma
cena, o opressor está sentado em uma cadeira com as
mãos e o corpo amarrados, enquanto a outra figura segura
violentamente seus cabelos e, com uma faca em seu pescoço,
imobiliza-o. Em outras, o opressor está de joelhos,
com um revólver apontado diretamente para sua cabeça,
ou está com as mãos erguidas, frente a frente com
a vítima, ou de costas para ela, com as mãos
para o alto, ou, ainda, está sentado em um banco, tendo as
mãos fortemente amarradas e para trás de seu corpo,
enquanto a vítima, cautelosa, aponta-lhe a arma de
certa distância. Sucessivamente... auto-retrato matando
George W. Bush, Luiz Inácio Lula da Silva, Bento XVI, Eduardo
Campos, Fernando Henrique Cardoso, Jarbas Vasconcelos, Ariel Sharon,
Elizabeth II e Kofi Annan2...
cada um desses representantes hegemônicos como um programa
de extermínio. No título dos trabalhos, é
legível essa vontade do artista. Execução sumária
em curso. Auto-retrato matando o mau dirigismo e os desmandos
dos poderes estabelecidos.
Do político3, estão
imbuídos os novos trabalhos. Gil Vicente emerge radicalmente
de assuntos que tratam da condição humana, da subjetividade
que a envolve4, e penetra nos espaços
intrincados do mundo visível, contaminado de acontecimentos
político-sociais condutores do comportamento do homem enquanto
sujeito da sociedade em movimento. Incisivos. Os desenhos são
em grande dimensão, nos quais prevalecem aspectos de contenção
e rigidez no uso dos materiais e na ação empreendida.
Objetivo. Não poderia ser agora de outro modo o embate com
os elementos desse mundo exterior que o incomodam intermitentemente.
Não que antes estivesse alheio aos fatores constituintes
do sistema social e de seus efeitos na organização
do lugar onde vive. São, essas questões, colocadas
de alguma maneira, sem dúvida implicitamente, em outros trabalhos
que realizou.
Sentidos internos e externos estão interligados na compreensão
desses trabalhos5. Trata-se de
um ato isolado, um expurgo do artista contra os modelos
políticos de dominação que organizam as sociedades,
e, ao mesmo tempo, de uma tentativa de alertar as pessoas
contra as ilusões6.
Trata-se de uma tomada de consciência7,
que não necessariamente espera ser correspondida, e, ao mesmo
tempo, de uma vontade de comunicar8,
de provocar o público e acender reações ambíguas.
Repulsa. Empatia. Indiferença. Ou o que for. Não importa,
na verdade, um entendimento unívoco ou diferenciado de cada
um dos sentidos que movem o artista, tanto melhor dos mecanismos
que ele utiliza como dispositivos imediatamente transgressores de
regras as obras. O embaralhamento das relações
indivíduo/sociedade (do indivíduo na sociedade capitalista
contemporânea) permite, ainda que assim, uma interpretação
analítica, mas não-dogmática, no âmbito
da investigação sociológica, dos elementos
constitutivos que regem a vida em sociedade daquilo que é
público e privado, universal e particular, do dentro e do
fora na experiência humana9
, atenta ao caráter de reciprocidade das operações
que ocorrem entre os diversos setores dessas relações.
Desse modo, tudo o que é interno e externo à vontade
do artista como experiência da realidade está inequivocamente
realçado em sua prática artística10.
Nos trabalhos, a operação empregada por Gil Vicente
apenas com carvão e papel ao trabalhar o traço
com precisão e detalhamento para deixar a sua imagem e a
dos nove líderes públicos o mais próximo possível
da verdadeira é, assim, uma narrativa amparada na
complexidade de fatos reais, sintomáticos do sistema social
no qual está inserido11.
Para não deixar que outras situações o desviem
de sua intenção, a vítima está
só com os seus opressores, e somente uma linha desenha
sutilmente os espaços-tempos prováveis em que se encontram12.
Pois que sejam estes quaisquer lugares-comuns desvendados pela atitude
perspicaz do leitor a cada cena. A vítima está
concentrada em sua realidade infeliz, invadida que foi pelas figuras
atrozes dos opressores, os quais passaram a governá-la
com tirania ao planejarem tomar toda a substância material,
ética e espiritual que lhe dá significado. Mas, ainda
assim, a vítima reage transformando o que lhe sobrou
em armas para a sua defesa e vingança. Então ameaça
esses opressores, inimigos de sua conduta moral, de seus
costumes, de sua cultura e história. Parece não haver
outra forma de conquista senão aquela dada pela violência13,
virulência catártica, pelo ato possesso de aniquilamento
dos poderes instituídos e (por que não?) imposição
de outros. Os opressores que estão aí (decalcados
na forma dos desenhos realísticos e denunciadores do artista)
sabem que o diálogo dissimulado é o único jeito
de conter essa ameaça. Mas a vítima, que saiu
do sério, mostrando-se indignada em atitudes e gestos,
está consciente de que, se ouvi-los, sua vontade será
eclipsada pelo poder de dominação que têm para
devolvê-la novamente ao mundo de alienação onde
esteve aprisionada durante tempos.
O estado da vítima da opressão no nível
sociopolítico das sociedades globalizadas é o estado
dito irremediável dos sujeitos cidadãos que nela residem.
A globalização que se dá no nível da
informação multifragmentada em sentidos torna também
multifragmentada a comunicação entre esses cidadãos.
Por esta via, seus posicionamentos são ações
isoladas, microações que ocorrem primeiro no habitat
especializado. Sua circularidade em um campo maior depende rigorosamente
da força unificadora e, portanto, comum que podem conter
as mensagens que projetam nos canais híbridos dessa comunicação.
O cidadão é, assim como está escrito nos desenhos
de Gil Vicente, o energúmeno14
que, situado no campo de sua resistência reativa15,
persiste violentando impetuosamente as convenções
(as suas mesmas, as da família, do Estado, da sociedade),
confrontando-as com as informações perturbadoras do
seu estado de vítima das injustiças sociais
generalizadas, das formas de governo e das guerras, corrupção
política e econômica, dos preconceitos e da violência.
Do mal do mundo16.
O cidadão é o energúmeno porque, mesmo impedido,
esbraveja uma denúncia do mundo, praticando o seu ato solitário
com a convicção de que possui uma liberdade construída
na base de sua consciência (política). Por outra via,
é energúmeno porque contraria o status quo
ao, abertamente, coletivizar sua ação no instante
em que a manifesta publicamente, criando um território comum
inevitavelmente partilhado com outros sujeitos da História.
A ação empreendida nos desenhos por Gil Vicente, ao
retratar-se como o que mata os poderes do mundo, pode ser entendida
como metáfora de uma vontade maior e subjetiva dos indivíduos
sociais, vítimas autênticas da desordem do mundo.
O artista, que também se assume vítima, é
o que encarna essa vontade no interior de sua prática artística,
tornando-a vetor de transmissão da crise gerada por essa
desordem. Ocorre que, nos desenhos, cada sentença acionada
corresponde a vontades de reivindicação e revolta
dos cidadãos, constantemente afetados pelo poder de seus
opressores.
Em sentido oposto ao sonho de transformação das sociedades
que as práticas artísticas modernas buscavam instaurar
através de atitudes políticas engajadas, a série
Auto-retratos matando George W. Bush, Luiz Inácio Lula
da Silva, Bento XVI, Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardoso,
Jarbas Vasconcelos, Ariel Sharon, Elizabeth II e Kofi Annan
não parte de nenhum projeto político defendido pelo
artista, tampouco apresenta, em sua escrita, vocação
alguma para instaurar idéias nefastas de libertação
dos sujeitos da dominação. Na verdade, interpreta,
nos vários momentos tensos de sua narrativa, sintomas velados
de uma crise que opera níveis cada vez mais destruidores
da condição humana no mundo. Cúmplices ou testemunhas
dessas ações, neste momento, são os olhares
diversos do público.
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1.
Feitos em carvão sobre papel e medindo 200 cm x 150 cm
cada.
2. Gil Vicente fez vários estudos de rostos desses
dirigentes hegemônicos a partir de imagens retiradas da
Internet. Em seguida, construiu todo um repertório para
uma cena de execução, na qual ele era
o seu próprio personagem, e os personagens líderes
do poder eram representados por pessoas geralmente muito próximas
a ele. As nove cenas de morte foram registradas em fotografias
que serviram de referência à elaboração
do desenho em papel maior.
3. A dimensão
política nos desenhos de Gil Vicente talvez guarde alguma
relação com a noção de política
como prática de liberdade do indivíduo na sociedade,
defendida por Arendt. In ARENDT, Hannah. O
que é política? Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1998.
4.
Com os desenhos da série Sessenta Cabeças, produzidos
na década de 1990, e da série de Auto-retratos Rorschach,
que apresentou na 25ª Bienal Internacional de São
Paulo, em 2005, Gil Vicente demonstra claro interesse pelo isolamento
da figura humana em um ambiente totalmente inventado por ele,
em que a comunicação parece ocorrer apenas através
das vias do pensamento e da reflexão psicológica
sobre a existência.
5.
Em comentário feito pelo artista brasileiro Eduardo Frota
[novembro de 2005], do qual também compartilha este texto,
em suas linhas centrais, esses sentidos são originados
de um incômodo pessoal de Gil Vicente, que se acentua
nos campos social e político.
6. Declaração
do artista. CAVANI, Júlio. Gil
Vicente radicaliza o traço. Diário de Pernambuco,
Recife, 14 de setembro de 2005.
7.
Neste caso, a tomada de consciência diz respeito à
atitude não utópica do artista com relação
a quaisquer projetos políticos de transformação
social.
8.
Eu, como cidadão, usei o canal de comunicação
que eu tenho, que é o meu trabalho, para externar e tornar
público um momento pessoal meu. Idem, nota 6.
9. No sentido
weberiano, as relações humanas só podem ser
apreendidas quando o são também os sentidos dados
às suas ações, que são dispositivos
de significações sociais. Weber, Max. Metodologia
das ciências sociais, parte 2. São Paulo:
Cortez Editora, 1992.
10. Para o filósofo
Jacques Rancière, as formas de artes são formas
de inscrição do sentido de comunidade, que, por
sua vez, definem a maneira como as obras fazem política,
quaisquer que sejam as intenções que as regem, os
tipos de inserção social dos artistas ou o modo
como as formas artísticas refletem estruturas ou movimentos
sociais. RANCIÈRE, Jacques. A
partilha do sensível: estética e política.
São Paulo: EXO experimental org. Ed. 34, 2005. p.18-19.
11.
...queria fazer um comentário real, como se fosse
um documento ficcional. Idem, nota 6.
12. obra em seu
sentido estético é o recorte dos tempos e
dos espaços, do visível e do invisível, da
palavra e do ruído que define ao mesmo tempo o lugar e
o que está em jogo na política como forma de experiência.
A partilha do sensível: estética
e política. São Paulo: EXO experimental org.
Ed. 34, 2005. p.16.
13. Para Suely
Rolnik, a violência como política de resistência
no jogo de forças antagônicas da lógica capitalista
no mundo contemporâneo, no caso da vítima, é
uma reação à violência de seu algoz.
A violência, em sua versão negativa, é hegemônica
em nossa contemporaneidade, à medida em que é
amplamente propagada pelo capitalismo mundial integrado
através da mídia, diz a autora. Por outro lado,
Rolnik aponta que o esgarçamento da figura da vítima
pelo indivíduo social constitui-se em uma necessidade vital
do mesmo, que deseja escapar da lógica perversa de subordinação.
ROLNIK, Suely. O ocaso da vítima:
para além da cafetinagem da criação e de
sua separação da resistência. Ars -
Revista da ECA/USP, vol.1, n.2, São Paulo, 2003.
14. Em sua crítica da modernidade, a respeito da
pintura retiniana, Marcel Duchamp dizia: o pintor se integrou
completamente na sociedade atual, já não é
um pária. É possível uma aproximação
de sentidos entre essa assertiva de MD, que segundo Paz prefere
a sorte do pária à do artista assimilado,
e a idéia do energúmeno defendida neste texto. Com
significados e abordagens diferentes, entretanto, ambas compartilham
do mesmo desejo de rejeição a quaisquer situações
impostas pela sociedade. PAZ, Octavio. Marcel
Duchamp ou o castelo da pureza. São Paulo: Perspectiva,
2002. p.58-59.
15. ROLNIK, Suely.
O ocaso da vítima: para além
da cafetinagem da criação e de sua separação
da resistência. Ars - Revista da ECA/USP, vol.1,
n.2, São Paulo, 2003.
16.
Expressão usada por Gil Vicente para referir-se aos problemas
políticos e sociais no mundo atual.
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