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Gil Vicente
O Anti-Flâneur
Maria do Carmo Nino
Segundo o dicionário, flâner é passear sem
pressa, se abandonando à impressão e ao espetáculo
do momento.
Se para falar sobre a recente produção fotográfica
de Gil Vicente à qual ele dá o título de Portas,
Passagens, Desenhos, eu evoco aqui a definição do
flâneur, é que, ao conversarmos, ele pontuou seu interesse
pelas produções impregnadas de intuição,
sem pretensões artísticas ou estéticas, presentes,
por exemplo, nos desenhos infantis dos alienados mentais ou em um
certo imaginário popular.
Isso me fez vislumbrar a possibilidade de apreender o seu trabalho
fotográfico como resultado de um passeio pela cidade do Recife,
onde, se colocando como um observador privilegiado pela experiência
como artista do que o rodeia, tenta extrair desse embate
com o cotidiano despretensioso algo de novo, que excite o olho e
a imaginação, que abale nossos modos de reconhecimento,
de olhar fundado sobre categorias estéticas tradicionais.
Mas o olhar de Gil aponta principalmente para lugares que evocam
a noção de limite e de transição: portas,
passagens, muros. Ao contrário do flâneur, que pratica
um tipo de apologia do olhar, inventariando as coisas, fazendo com
que
as várias distâncias da paisagem se insurjam na imagem,
essas fotografias elegem um ponto de vista estritamente frontal, que
se inserem na busca do artista pelo contido, pela sobrevivência
através do mínimo; elas tampouco lançam uma luz
sobre a identidade destes lugares: descontextualizadas do seu entorno,
a imagem que nos é apresentada, revelada, em nada nos informa
sobre os bairros onde estão localizados, há quanto tempo
ali se encontram, nem a que tipo de uso são destinados, ou
ainda a quem atribuir a autoria das formas e cores que chamaram a
atenção do artista.
Para o flâneur, a cidade se transforma em "paisagem
sem soleiras"1, para Gil ela
se reveste de um interesse inusitado exatamente naquilo que se configuraria
como uma aparente negação da paisagem. Segundo Aristóteles
"a paisagem é o último limite imóvel da
percepção que eu tenho do que me rodeia"2.
Ela tem no horizonte a linha de encontro entre o céu
e a terra um dos elementos que a constitui, tornando-a uma
totalidade visível na qual todo lugar se encontra e manifesta
sua singularidade.
Devido a tradição pictórica do renascimento
perspectivista reforçado inclusive pela fotografia
e sua noção de enquadramento , nós percebemos
a paisagem como um quadro onde a forma é limitada por uma
moldura, um recorte, organizada por seus diversos planos, se dando
como último limite.
Em que medida podemos considerar estas imagens como paisagens?
Elas parecem nos questionar sobre nossa capacidade de distinção
entre os limites do que seria o objeto artístico e o objeto
ordinário.
O mundo da arte contemporânea pode ser qualificado de paisagem,
pois tudo que se coloca como mundo distinto do mundo que o constitui
torna difícil estabelecer em que e por que ele se distingue,
nos colocando diante da possibilidade de determinação
de limites, justamente.
Há sempre uma busca do último limite na produção
que se quer contemporânea, mas só o artista
este inventor de possibilidades pode transfigurar um espaço
abstrato em algo concreto, orientado e figurativo, através
da subversão de sentidos, numa concepção heraclitiana
de aliança de opostos, quebrando a monotonia e a cotidianidade,
abrindo o horizonte onde aparentemente só há fronteiras.
1. PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens
urbanas. São Paulo: Senac, Marca d'Água,
1996. p. 88.
2. CAUQUELIN, Anne. Paysage et environs, une logique du vague.
Critic, Paris, n.
577/578, p. 456, 1995. Art et Paysage.
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