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Abismos em Movimento
Mário Hélio
O Pintor Gil Vicente é um perito em abismos. Não
satisfeito em tornar-se virtuoso na difícil e irônica
arte do retrato, volta-se para pintar o invisível, o sombrio,
o insondável quase do subconsciente. Tudo o que há
de subterrâneo numa cabeça humana, a mais intrigante
das formas inventadas. As suas figuras já são de há
muito almas inquietas, como rostos sempre revistos por dentro.
Se as cicatrizes que rasuram as lousas das máscaras-máquinas
sensíveis que são os rostos humanos, ele faz o seu
abismo cada vez mais em movimento e afina o seu traço para
riscar, poluir, manchar, submeter as suas imagens a todos os choques
e estremecimentos possíveis. Encontra o novo a partir dos
elementos aparentemente mais comuns. Por isso, é tão
fácil dar razão ao crítico Mario Praz (escrevendo
sobre Dannunzio): A originalidade de um artista consiste
na ruptura das associações mais óbvias.
Escapando da necessidade fácil de agradar, o artista não
teme os seus horrores. Nem busca ser um facilitador de caminhos.
Nunca foi um iconófilo, porque desde o fascínio que
exerce sobre si a figura, especialmente a humana, quase que naturalmente
rumou para uma sutil iconoclastia. E com isto vem fazendo uma arte
a cada exposição mais complexa. Se é possível
falar ainda numa anatomia de alma e melancolia como se fala do corpo,
o rosto é o território privilegiado disto. Sobretudo
da solidão e da agonia. Da inquietação humana,
mesmo disfarçada em mimese.
Uma cabeça pode ter cada uma de suas partes perfurada, amputada,
mutilada, deformada. O nariz, a língua, o pescoço,
os dentes, os cabelos, as orelhas, os lábios - nada fica
em estado puro ou intacto. Homens e mulheres, como à diferença
dos deuses que amam para formar, adoram deformar-se e reformar-se.
Em nenhuma época, como no século passado - era por
excelência das imagens - o corpo e o rosto viveram mais como
objeto de culto e transfiguração. O engano, entretanto,
seria pensar que essas reinvenções do corpo humano
são típicas ou principais das culturas urbanas ocidentais
do final do segundo milênio. Seja a transfixação
ritual da língua pelos maias, ou de laceração
na Índia, ou amputação da úvula no Chade,
perfuração das bochechas na Síria, ou até
a excisão de narizes, lábios e orelhas praticada pelos
mochicas, a insatisfação dos humanos com seus rostos
é assunto que já resultou em livros e mais livros.
Tudo terá um sentido ritual ou de simples ornamentação?
Neste mundo não há nada simples, acudiria logo um
escritor perito em fantasmagorias. A arte é pródiga
não em desvendar a realidade, ou facilitar a leitura do mundo,
mas penetrar as suas entranhas, os seus abismos.
Se abismo atrai abismo, o da pintura abraça o da poesia.
O livro Pampa Pernambucano, que a poetisa gaúcha Beatriz
Viégas-Faria lança no próximo mês, foi
motivado pelos quadros de Gil Vicente que ela viu através
de imagens indiretas (em vídeo, principalmente). Num depoimento
exclusivo, o artista fala de sua formação, as obras,
o mercado de arte e, completando-o, os ensaios de Agnaldo Farias
e Anco Márcio Tenório Vieira.
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