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Por que Gil Vicente suscitou um pampa que se quer pernambucano

Beatriz Viégas-Faria

Porque, quando a vida apresentou-me a Gil Vicente, via TV a cabo, enxerguei na telinha Sessenta Cabeças derivadas de uma cabeça só, genial esta no admitir as inúmeras contradições de seu viver. As expressões das cabeças de Gil Vicente não têm alegria. Elas têm, a meu ver, intensas indagações sobre sua natureza humana e, como resultado, encontro no trabalho de Gil uma solidão torturada (que também pode ser torturante), inerente à condição humana - é a solidão que nos habita em maior ou menor grau e que a arte de Gil Vicente não cansa de denunciar.

O que me atraiu à obra do pintor foi certamente sua temática. E minha resposta foi instintiva: resolve-se a solidão nos afetos e no impulso de seduzir - assim gritam os meus poemas. Junto "Homem apoiado na mesa" e "Mulher sentada perto da mesa", faço as duas figuras de Gil Vicente se enxergarem, invento num Pampa pernambucano a "Resolução do olhar" (p. 85), e apresento ao leitor as imagens gentilmente cedidas pelo artista em páginas contíguas (p. 54-55) de meus "textos inspirados".

Em Gil Vicente, cativam-me sobretudo a discreta elegância de seu trabalho e de sua pessoa e a sofisticação formal embutida na aparente simplicidade de sua obra, numa linha "less is more". E, no entanto, pudesse eu discorrer por longas páginas sobre o que em Gil Vicente me levou a uma criação poética primeira, eu estaria ainda assim contemplando não mais que 5% daquilo que em mim move e comove a obra plástica desse pernambucano. Do que imagino serem os outros 95% falei ao próprio Gil em e-mail de 5/2/2000, num trecho que aparece publicado em Pampa pernambucano: "teu material mexe comigo, pega por dentro, entra sem ser convidado no cadinho da minha história, toca cordas desconhecidas na imaginação. Que ninguém me peça explicações - eu não as tenho" (p. 86).