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Trechos de e-mails

E-mail 17/6/99

Gil:
Quer ver coisa mais estranha? Um dia te pergunto “por que só figuras sozinhas?” e depois, quando vejo mais de uma figura nos teus quadros... elas continuam sozinhas! Separadas pelo espaço ou pela morte. Quanto a “A Visita”, custei a chegar em algo que me respondesse satisfatoriamente a por que esse teu quadro me fascina de um modo inquietante, por que desassossega. Quando me brotou na mente a solução, me nasceu também outro esboço de poema. Por que na minha visão do teu desenho os dois estão sozinhos, mesmo abraçados? Porque “A Visita” é um sonho, uma fantasia erótica, um desejo de amor violento mas consentido, em que o parceiro só está ali na imaginação do outro. Meu último verso é “quem visitou quem?” Abraço, como sempre, encantado.

E-mail 1/7/99
Títulos

Gil, meu artista, de onde tu tiras os títulos p/ os teus quadros? Num exercício que fiz, de tentar imaginar o casal de “A Visita” como duas pessoas não-sozinhas, teu título detonou a tentativa. Visitas são temporárias, não vêm p/ ficar. A elas oferecemos um café, mas não o pão nosso de cada dia. Para elas sorrimos, mas por elas não choramos. Elas nos acompanham numa bebida, pode-se até tomar um porre juntos, mas permaneceriam ao nosso lado quando é preciso vomitar a vida? Como eu te disse, encontrei em Mario Quintana a síntese dessas minhas elucubrações - por puro acaso, num pôster num corredor na universidade, uma frase dele que eu não conhecia. Quintanarmente, ele escreveu:
“Amor é quando cada um fica morando no outro”.
Boa noite.